sábado, 23 de janeiro de 2016

O menino da bandeira

Uma das mãos segura pelo irmão mais velho, a outra disponível cerrava-se em punho, ou em “v”, tanto fazia. Gritava pela força unida do povo. O verão corria quente e agitado. Diariamente, participava nas arruadas promovidas pelos partidos e movimentos políticos. Os seus 5 anos não lhe permitiam ter grande noção do significado das siglas pelas quais gritava. Que importava? As ruas enchiam-se de gente numa festa permanente. Posicionava-se na linha da frente, gritando, cantando voos de gaivotas seguidas do adeus a qualquer coisa que não sabia definir ou explicar. O indestrutível TELEFUNKEN lá de casa debitava comunicados e debates protagonizados por grandes bigodaças e cabeleiras, barbas de 3 dias, colarinhos intermináveis e jornalistas muito sisudos e inseguros. Os pais acompanhavam as notícias sem grandes comentários. Os 40 anos de escuridão tinham entorpecido as ideias e as palavras custavam a sair. À mesa, falava-se das incertezas nas escolas, dos saneamentos dos professores e das assembleias gerais onde todos podiam falar. Os adultos, a medo, em surdina, comentavam as alterações das chefias e as investidas dos movimentos revolucionários, muitas vezes cegos e surdos, questionando os desalinhados da nova ordem social.

Ainda sem tudo perceber, a criança de 5 anos, inferia dos desabafos do pai que no antes, nem todos eram maus e que também havia gente boa, gente de trabalho. Parece que havia um velhote, esse sim, um tirano que trazia o povo esfomeado e oprimido. Parece. Como podia ele entender o que ia na cabeça dos adultos? Para ele, menino, nada mudara, as ruas continuavam disponíveis para as futeboladas, os índios continuavam a ser índios e os cobóis continuavam a ser cobóis. Os pássaros continuavam a fazer os ninhos. As ruas continuavam sujas. Havia mais gente a chegar todos os dias, trazendo vidas passadas encaixotadas. Traziam um olhar triste e saudoso e tinham uma tez morenecida por um Sol que talvez brilhasse mais…

Mais tarde, em 76, um pouco mais crescido, o menino participava no fim do comício no Cine Teatro Torralta. Em pleno palco, o menino, agitava uma enorme bandeira com umas letras que ele aprendera há pouco, lá na escola da Estacada: EANES. Eram letras enormes e a julgar pela alegria do povo ululante, deveriam querer dizer alguma coisa de bom. Talvez significassem um cumprimento, uma saudação, pois o povo repetia-as vezes sem fim, em uníssono e cada vez mais alto. Fosse qual fosse o significado daquelas letras, causavam uma expressão de esperança nos semblantes dos homens, agora já escanhoados de pilosidades bafientas. O próprio colorido das vestes das mulheres ganhava outras tonalidades, muitas e diferentes e tudo parecia belo e possível.

O menino de 5 anos, mesmo sem perceber porquê, estava feliz.

Os anos foram passando e a Palavra tinha invadido a boca de toda a gente. De repente, as línguas soltaram-se no aparelho japonês que tinha substituído o velho TELEFUNKEN. Havia muitas opiniões, para todos os gostos. Proliferavam as siglas mais à esquerda, mais à direita e ao centro. Sim, as ideias estão sempre muito bem arrumadinhas num só lado e não são permitidas bilateralidades duvidosas e imprevisíveis. Falavam muito. Prometiam ainda mais. A cada passo, nas eleições montava-se um circo de distribuição de brindes, de colagem de cartazes, de comícios com muita gente e de tempos de antena com frases bonitas e arrebatadoras. Quem poderia ficar indiferente a tanto bulício e a tamanha dinâmica renovadora? Ninguém! Tudo a bem do povo. Chamadas a votar, as pessoas depositavam a sua vontade, a sua crença em urnas de esperança. Faziam-no de boa fé. Umas num sentido, outras, noutro. O próprio menino de 5 anos também já tinha ganho o direito, que era também um dever, de votar. Posicionou-se no ponto que foi achando mais adequado, mesmo já não pegando em bandeiras. Com o tempo, as dúvidas foram instalando-se. Cada vez mais havia perguntas para as quais tardavam as respostas. Percebia-se que na penumbra, uns braços de poder alcançavam os tais partidos das siglas. Estranhamente, a política fazia-se em lojas exotéricas, seguindo rituais enigmáticos. Também se fazia ao abrigo de crenças e de castas instaladas, de pais para filhos, em irmandades muito bem intencionadas.

E assim, aos poucos, a alegria e a esperança das arruadas em que o menino de 5 anos participara, foram perdendo-se no tempo. A vontade de mudar o mundo e a confiança depositada nos homens bem vestidos e falantes, transformou-se na desconfiança perigosa e incerta.

Entretanto, lá em casa, o aparelho japonês tinha sido substituído por outro, chinês, maior e mais delgado, com melhor definição de imagem e com som polifónico. Os serões preenchiam-se agora com novelas e futebóis entremeados com comentários encomendados, vendidos, que tudo dizem saber, tudo entender.

O menino de 5 anos, de caneta na mão, escreve agora estas linhas. A mesma caneta que no próximo domingo não deixará de escrever. A tinta não correrá célere mas a mão que guiará a caneta, depositará a esperança na negra urna. Mais uma vez.


Rui Machado

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

“ Uma criança, um professor, um livro e um lápis podem mudar o mundo” – Malala Yousafzai *


Falava há duas horas. A sala configurada em “U” permitia que todos se olhassem frontalmente. Impecavelmente vestido, boa silhueta, deveria ter mais de 50 mas menos de 60. Não se sentava um segundo. Deslocava-se à nossa frente, gesticulando, exemplificando ou rabiscando no quadro. Intercalava o discurso fluente com um ou outro apontamento de humor que captava de novo a nossa atenção. Da minha parte, confesso que nem sempre a minha atenção se focava nas suas ideias, nas suas teses e na sua procura constante. Admirava o seu prazer em ser professor. A aula era uma verdadeira arena, onde ele, lutador incansável, provocava, estimulava, entregando tudo que tinha, desfazendo-se lentamente. Não raras vezes, recebia olhares e opiniões contrárias às suas, não se esquivando, pelo contrário, posicionava-se de frente à espera de receber e entregar. No final daquelas tardes de sexta-feira, sentíamo-lo totalmente despojado, sem energia. Uma ou outra vez, no final, fui falar com ele, colocando--lhe alguma dúvida ou simplesmente, usufruir da prédica mais um pouco. Tinha necessidade de se recompor por mais alguns segundos, só então regressava e perguntava: 
Então diga lá! 
Mais tarde confessei-lhe que foi necessário chegar à idade de Cristo para ter um professor de excelência. Talvez estivesse a ser injusto. Na verdade, tive outros, muitos bons também. Lembro-me de uma de História, irritantemente inquieta. Ignorava orgulhosamente os manuais do Pedro Almiro Neves. Tinha a sua própria agenda, o seu singular programa donde não se desviava uma vírgula. Adorava que tirássemos apontamentos e que usássemos as suas máximas nas respostas dos testes: “ Portugal sempre teve uma carência endémica de cereal” – dizia-o com altivez e com postura estática no meio da sala, para que todos a vissem e sobretudo, ouvissem. Muito empenho, dedicação e seriedade. Dos alunos exigia a mesma postura responsável. Tinha fama de exigente, fria e antiquada. Assim me serviu de exemplo. Não a queria recordar diferentemente. Outros tive que me marcaram tanto, que me ensinaram tanto e sem saber, me traçaram o destino. Destino de vocação, de missão, de entrega e desprendimento. 

Em tempos conheci um professor que dizia “ eu gosto é de preencher cabeças”. Partindo do princípio que elas, as crianças, estão vazias, o que não é verdade, é de facto um privilégio ajudar a preenchê-las. É uma riqueza mostrar os caminhos, orientar as águas pelos regos que julgamos certeiros, descobrir os dispositivos que acionam o conhecimento, proporcionar a luz e a independência. Costumo dizer que a partir do momento em que temos a possibilidade de ensinar, que temos a oportunidade de ter alunos, nada mais importa. Aquele momento é só nosso. Sem ruídos plasmados em decretos, despachos, tiques autoritários, doutrinas, modas, guerrilhas partidárias e palcos experimentalistas. Só nós e eles. E assim acontece. De repente, num processo mais ou menos lento, trazemos todo o mundo para a sala de aula. Viajamos nas asas dos poetas. Agilizamos o cérebro no cálculo aritmético. Traçamos destinos geométricos de muitas formas e cores. Sintetizamos experiências em fórmulas labirínticas. Olhamos as estrelas conhecendo-lhes as histórias. Organizamos vidas passadas em nomenclaturas. Conhecimento. E eles, os nossos alunos, a nossa matéria-prima, ali estão. Disponíveis. Prontos. Preparados.

Ensinar é um poder incomensurável. Uma responsabilidade. Uma missão. Professor que acolhe, que mima, que orienta, que dá a mão, que fornece as ferramentas, que cultiva, que incrementa, que inova, que se adapta, que responde, que recebe, que integra e que esbate a diferença. Professor que se expõe, que sofre com os dedos acusadores daqueles que não gostam dele, que não gostam da Escola. Que se encaixa nas reformas que sucedem a reformas. Professor enquanto ator da Escola baleada à falsa fé, vítima de terrorismo legislativo. Professor psicólogo, médico, assistente social, terapeuta, economista, gestor. Tudo o professor é. É palhaço com obrigação de fazer rir nos dias cinzentos. É cirurgião de mão trémula que não pode falhar a incisão pelo bisturi. É anestesista que não pode errar na dosagem. É engenheiro que não pode errar o cálculo sob pena da ruína da estrutura. É controlador aéreo que não pode ter noites mal dormidas e problemas familiares. É por tudo isto que o tal professor que deu origem a esta crónica se ausentava, se transfigurava, se multiplicava e pulverizava o seu exemplo sobre nós, humildes aprendentes e discípulos.

E assim.

Aos poucos.

Mudamos o mundo.

*Malala Yousafzaï, a adolescente paquistanesa baleada na cabeça pelos talibã pela sua campanha em defesa do direito à educação das raparigas, foi uma das vencedoras do Nobel da Paz 2014.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

A nossa vida ficcionada e os incómodos que causamos aos senhores


Nunca mais ganhamos juízo. Que mania a nossa de vivermos acima das nossas possibilidades. Então não é que ainda estamos a pagar o BPN e o BES e já nos comprometemos a pagar o BANIF? Assim não vamos lá! Senhor trabalhador por conta de outrem, senhor empresário empreendedor e cumpridor, que mania a vossa de pagar e pagar um sistema bancário tão competente e eficiente. Dez mil milhões de euros?! Tem de ser por causa do risco sistémico, do risco de contágio, é necessário proteger a economia. Foi por não termos essa preocupação que na minha rua onde havia 50 casas comerciais, agora há 6. Quando faliu o Pedro eletricista, o Neves alfarrabista e a Carmelinda modista, devíamos, nós os moradores, alegres contribuintes, ter pago as suas dívidas. Ter-se-iam evitado dezenas de despedimentos. Mas não, ninguém nos pediu para pagar porque se tivessem pedido, nós pagávamos. Na verdade, eu já desconfiava que alguma coisa não estava bem, aquele Aquiles da barbearia do Tavares que tinha estado na América, na terra das oportunidades, tinha vindo tomar conta do negócio e com ideias muito inovadoras e lucrativas. Mas não tinha grande pinta. Falava de forma pausada e competente e como ninguém o percebia, ninguém o questionava. O safardana queria implementar novas técnicas de gestão e teve a ideia peregrina de propor aos clientes o pagamento adiantado de 100 cortes de cabelo. Se assim fosse, assegurava aos clientes e a todo o agregado familiar, uma aparadela mensal até ao fim da vida dos incautos clientes. Ia mais longe pois quem subscrevesse o pacote Melena Sénior Plus, pagando 110 cortes de cabelo, garantia a aparadela aos canídeos das famílias. Era uma grande ideia. Muita gente aderiu estusiasticamente à proposta tentadora. Até mesmo os carecas. Que diabos?! Era um bom negócio, com a esperança de vida a aumentar, a probabilidade de cortar de borla o cabelo por muitos e longos anos, não oferecia risco ou quase não oferecia risco. Dizia o Aquiles. O pior foi que um belo dia, o Aquiles deu às de vila diogo com a criada de servir dos Miranda e ninguém mais soube dele. Nem dele nem do dinheiro. Durante semanas a fio, os lesados do Aquiles não largaram a porta da Barbearia do Tavares a exigir o dinheiro de volta ou pelo menos o corte gratuito da melena. Já não havia quem parasse as suíças e os pescoços precisavam de um caldinho bem feito. E o Tavares? O Tavares dizia desconhecer o acordado. Como era possível, ele, o supervisor de todos os pentes e tesouras da mais afamada barbearia lá da terra, não saber nada? A informação de que dispunha não apontava na direção da fraude, pelo contrário, o negócio estava em plena expansão. Um dos donos disto tudo, tinha dito solenemente na rádio local que estava tudo bem, que tinha como boa a informação fornecida pelo Tavares. Sim, o barbeiro tinha até tido a delicadeza de o informar, previamente, dos bons ofícios do Aquiles e dos produtos inovadores da barbearia. Só não entrou no negócio porque, coitado, as reformas dele e da mulher não chegavam para extravagâncias. O povo, com o desgosto, deixou crescer o cabelo e emigrou em massa. 

E assim corre a vida no nosso Portugal. Sempre tudo tão natural, tão lógico. Só faltava que o senhor que faz o favor de tomar conta do meu dinheiro e até me paga a luz, a água, o telefone e as restantes mordomias da fidalguia tivesse a maçada de me telefonar a informar-me que a partir do mês tal, o banco me cobraria despesas de manutenção mensais. Espera aí, ligou mesmo. Ai sim? Perguntei eu. Tem mesmo de ser? Tinha sim, era de Lei. Ah se era de Lei, estava bem. Mas não se podia fazer nada? Podia. Se solicitasse cartões de crédito, fizesse uma poupança a prazo de 3000 € e/ou… Hum, pensei eu, que simpatia, que disponibilidade, que eficiência. Só havia um problema, dissera eu, além de viver acima das minhas possibilidades e de comer bifes todos os dias, tinha que ajudar a pagar os dez mil milhões dos bancos… O impecável funcionário sugeriu que fizesse um empréstimo para a poupança a prazo. Era bem pensado. E como pagava? Que ia pagando, logo se veria. Achei melhor não. Pagaria as despesas de manutenção, sempre os ajudava a pagar os telefones e a internet. Solícito, perguntou se podia ser útil em mais alguma coisa. Podia sim, já agora, que história era aquela do aumento da anuidade do cartão? Nem pensar, não pagava nem mais um tostão. Levavam-me tudo. Tudo aumenta, dizia o senhor. Tudo não, os meus rendimentos não aumentavam. Até que, muito educadamente, me informou que o aumento decorria da atualização da tabela do preçário das anuidades dos cartões. Ai sim? Porque não dissera logo, se era de Lei, estava certo. Ainda tive oportunidade para lhe agradecer tanta disponibilidade para olhar por mim, pobre despesista. 

É tão triste a ignorância financeira. Imaginem lá que eu desconfiava que a liberalização dos preços dos combustíveis e da energia eléctrica era uma forma subtil de tramar os consumidores. Claro que não, pode custar um bocadinho ao princípio mas tudo entrará no rego e as entidades reguladoras são muito nossas amigas.

Ou talvez não.

Rui Machado

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O mergulho no Poço do Inferno e a afronta aos espanhóis


A vida quando quer pode ser bem prazenteira. Quando os maus pensamentos nos assolam devemos pensar naquilo que nos dá real prazer, funciona sempre. Há um punhado de pensamentos que me reconstroem o estado de espírito.

Comecemos lá atrás, nos meus 8 ou 9 anos. Nessa altura, eu e mais uma dezena de gandins, lá no Alto Minho, mais propriamente em Melgaço, nos dias de calor de Julho, rumávamos até às margens do Rio Minho para nos refrescarmos nas suas águas torrentes e caudalosas. Para lá chegar era necessário percorrer um longo caminho. Passávamos por pequenos cursos de água que devido ao relevo acidentado formavam regatos. Havia um, o Poço do Inferno, que pela nomenclatura e profundidade nos atraía mais do que os outros. Era um ligeiro abismo entre dois grandes penedos, de águas cristalinas e geladas. Fazíamos concursos de mergulho, o que não era nada fácil porque tínhamos de, em pleno voo, fazer uma ligeira curvatura para não abraçar as rochas polidas pelas águas libertadoras. Era uma verdadeira aventura e um grito de liberdade genuína. Depois das carnes enrijecidas pela água fria, temperávamos o corpo na do Rio Minho, mais aprazível. E aí, não poucas vezes, protagonizávamos uma cena Felliniana: do outro lado do rio, já em território espanhol, passava o comboio expresso com rumo a Vigo. Ao aproximar-se do local, o gigante ferroviário fazia-se ouvir pelo seu silvo sonoro e prolongado. Alertados pela aproximação corríamos todos para a margem do rio e alinhavamo-nos com o traseiro virado para Espanha. Mal o comboio passava, baixávamos os calções e mostrávamos o lado B aos espanhóis. O Maquinista, não sei se em forma de defesa ou de protesto, apitava incessantemente até o perdermos de vista. Zangava-se o espanhol. Estava vingada a ocupação Filipina.

O relato trivial da infância faz-nos perceber que a vida vale a pena ser vivida. Mas há mais. Outro prazer que muito prezo é o cheiro da terra molhada depois de uma quarentena de calor. Ou o riso de um bebé. Ou o olhar expectante da minha cadela tipo “ o que queres que faça agora?”. Ou a brisa que nos varre a face ao fim da tarde. Ou o sumo de laranjas acabadas de espremer que nos desperta olfato e paladar e que nos purifica o corpo. O som das nozes a quebrar. O pardal que no beiral da janela nos visita e nos desafia para o acompanharmos nos voos sem destino partilhando connosco os dias de sol. O correr do leopardo, elegante e poderoso. O atleta vitorioso que chora quando ouve o hino. A lágrima que nos escorre ao ouvirmos aquela música… O beijo que damos àqueles que amamos. O reconforto, o abrigo nos seios daquela com quem partilhamos o ar do quarto. O canto lírico que nos arrepia a epiderme. A guitarra elétrica que sola um grito de desespero. O silêncio entre as notas musicais. A estrada sinuosa que nos leva de passeio. A elegância do cavalo de Dressage. As letras que se conjugam em palavras que nos soam certo, em harmonia. O sorriso dos nossos ou dos que desconhecemos. O livro que nos faz esquecer que amanhã é dia de trabalho. O crepitar na lareira da casca do pinheiro. A mão que nos acaricia o corpo. O sofá lá de casa. O cheiro da casca dos citrinos. A água que nos mata a sede. A música que nos embala num dia de chuva. A tecnologia que nos completa. O cão que nos olha e nos lambe a mão. As memórias das férias de praia. O doce que subtraímos à escapula da mesa posta de Natal. O ruído bom de uma conversa de amigos. A gargalhada à roda de uma mesa de memórias. O filho, que cresce mas continua nosso… O prazer solitário, motorizado ao conquistar km no asfalto. A viagem que nos alarga o horizonte. O silêncio, ah o silêncio, cada vez mais difícil de ouvir. E também as ideias despojadas da Maria Filomena Mónica. As memórias breves e possíveis de Saramago. O Pessoa pulverizado. O Lobo Antunes e as suas fadigas pós traumáticas mais as estranhas vidas das personagens do José Luís Peixoto. 

Tanta coisa boa nestas nossas vidinhas. Tudo bem, admito, também há os comentadores faroleiros, os saltos altos da vizinha a pisarem-nos o cérebro, as tardes das derrotas do Benfica, as dores nas cruzes, a conta bancária que encolhe e o estômago que dilata, o cabelo que escasseia, o valor alterado das análises… 

Pois escutai: O mergulho no Poço do Inferno e a afronta aos espanhóis ninguém me tira.

Rui Machado

sábado, 12 de dezembro de 2015

Matéria e outros elementos ou talvez o monólogo que queria ser diálogo

Fogo

Não há um dia que não me lembre de ti. Um único dia. Se à noite acordo, penso em ti. No banho penso em ti. Quando olho, mesmo não vendo, penso em ti. Quando rio, penso em ti. Em ti, sempre em ti. Tenho saudades de quando me chamavas vagabundo porque chegava tarde à noite. Tenho saudades de quando me pedias beijos e eu, furtivo, fingia que não queria. Tenho saudades de quando me punhas a mão na testa e me dizias que tinha febre. Tenho saudades de quando me penteavas e me chamavas nomes bonitos. Tenho saudades do teu comer, aldrabado como dizias. Tenho saudades de quando me chamavas troulas porque andava descamisado. Tenho saudades de te sentir por perto, existente, matéria. 

Ar

Aprecio esse teu lado sonhador, crente na boa vontade dos homens. Identifico-me com essa tua necessidade de atenção, mesmo dando ideia de que tens toda a força, mesmo quando não tens. Gosto de te ouvir, de te ler, mesmo que te pareça distante. Eu estou lá, contigo. Não me esqueço de quando me pegavas ao colo nas ruas íngremes. Vejo-te ainda na praia lendo o jornal no meio dos penedos, deitando um olho para quem passava e o outro para as letras do mundo, nem sempre boas de ler. Sigo o teu lado otimista, de que melhores dias virão e que tudo tem solução. Inspiro-me na tua resiliência, no teu já longo caminho. Reinventas-te e eu sigo-te.

Água

Gosto de te chamar mãe coragem. Tanto caminho trilhado, tantas vezes sozinha. Como te entregas aos teus e cuidas dos dos outros. Como tornas a diferença em igualdade. Como te manténs jovem e enérgica. Como te despes toda para que nada falte aos frutos do teu ventre. Lembras-te quando me levavas ( que remédio tinhas ) aos encontros com o teu namorado e eu dizia: Não gosto dele! Lembras-te? Por onde passas, as flores ficam mais belas.

Terra

Não me lembro ao certo da primeira vez que te vi. Sei que foi há muitos anos e no entanto foi há pouco, há poucochinho. Foi agora mesmo. Mas lembro-me da fragilidade que aparentavas e que cedo me nomeaste o teu fiel escudeiro. Ainda hoje, por graça, me chamas o teu segurança. E sou. Há muitos anos que seguro a tua mão no nosso destino comum. Desde o teu primeiro olhar que deixei de me sentir estranho, que os teus olhos me veem e não me sinto observado. Na verdade, sofro sempre que me não vês. Foi nessa tal fragilidade que captei o teu encanto e construi este amor antigo. E quem resiste ao teu sorriso? Viciado que estou em ti, ressaco sempre que não te tenho. Choro sempre que tu choras. Carrego-me nessa força que me empurra. Conforto-me em ti, na tua pele, no teu calor. Foste, és e serás sempre luz, fonte e alimento.

Fruto

Sabes, eu sempre quis ser pai. Tinha essa ideia, essa vontade. Para que serve a semente se não germinar um dia? Lembras-te do primeiro banho que te dei? Consegues ter memória desse momento? Mais do que memória, és a minha carne, a minha pele e não caibo em mim quando dizem que és meu, que não enganas. Lembras-te das nossas insónias? Quando juntos preenchíamos as noites más tornando-as mais suportáveis. Recordas o super-herói que um dia te dei? Para o infinito e mais além! Muito mais além, num lugar onde estaremos sempre juntos, aconteça o que acontecer. Talvez não tenha o direito mas quero que saibas que em ti, vejo-me em mim, em versão melhorada.

Flor

Escuta minha princesa, eu sei que às vezes sou um elefante e que tu és uma porcelana. Eu sei que nem sempre caibo no teu mundo de fantasia e sensibilidade. Que nem sempre estou presente e que não pareço atento. Quero que saibas que estou sempre a ver-te, que olho em todas as direções e que protejo o teu castelo encantado. Compenso-te em abraços, os meus, são os melhores do mundo.


Rui Machado

domingo, 6 de dezembro de 2015

Que força é esta?


Acordam as manhãs geladas, chegou finalmente o frio. Metemos os corpos quentes na roupa fria, um arrepio e estamos prontos para mais um dia. São 7 da manhã. No limite 7 horas e 9 segundos, o segundo tem de ser ímpar, sempre. Empurramos o corpo pela casa que ainda dorme, indiferente aos horários dos homens. Saímos. Outrora, os percursos até ao Liceu feitos a pé davam outro sentido às manhãs. O frio dos invernos de antanho envergonhava os sentidos que, um após o outro, despertavam lentamente. Agora, os caminhos são outros. Mais distantes e difíceis de alcançar. Mais solitários também.

Eu amo estes montes, estas invernias transmontanas. O cheiro das lareiras. Será carvalho, freixo, talvez carrasco, nobre lenha que nos aquece o corpo e ainda mais a alma. Mas a vida é difícil. Haverá vidas fáceis? O que será melhor, percorrer estradas geladas ou atravessar o rio para a outra margem na grande metrópole, lá onde tudo fica longe e as pessoas não se olham nos olhos? Mas lá, onde os carros invadiram os espaços das árvores e das pessoas, dizem-me que há muitas oportunidades. Que há cinema. Teatro. Muita gente. Talvez haja tudo isso. Mas não há horizonte. Não há alimento para os sentidos. Que seria de mim sem os horizontes curvilíneos dos montes onde o Sol se encaixa para dormir e depois, com tempo, se mostra devagar, vaidoso? Aqui, por detrás dos montes, o Sol lança a sua melhor energia para ajudar os homens no amanho da terra, tantas vezes ingrata e rude. Vida marcada nas rugas vincadas dos rostos parados no tempo a olhá-lo, ele que corre quieto, dia após dia ao ritmo das estações, ao ritmo das tarefas do campo.

Que horizonte é esse que me enraíza e me imobiliza? Que linguajar é esse, tão emocional e sentido? Que lindas as nossas mulheres! As nossas crianças! Que genuínas, que verdadeiras! Que força é esta que trago no peito e não quero sentir esmorecer? Força que me impede da procura da cidade que acorda quando o Sol ainda dorme deitado em pedaços de cartão debaixo de um qualquer viaduto. Mas essa força fraqueja. Devagarinho, qual doença invisível, impercetível nos meios de diagnóstico. Mas a Terra geme baixinho, nós não a queremos ouvir, ela lamenta-se… Onde estão as crianças que corriam alegremente para a escola? O que é feito das pessoas que enchiam os adros das igrejas? Onde param as tertúlias dos amenos fins de tarde que à soleira do café resolviam os problemas do mundo? Alguém viu o amolador de facas e tesouras? Aquele que arranjava os guarda chuvas estragados pelas inclemências do tempo. Ainda ouço aquele chamamento… Onde está o vendedor da banha da cobra? Aquele que dizia nos dias de feira “ chá sul africano para todas as maleitas, acorda de manhã…”, repetindo até à exaustão os benefícios da infusão milagrosa de proveniência duvidosa. O que é feito das pessoas que enchiam os comércios? As drogarias. As retrosarias. Os alfaiates e modistas. Os barbeiros. O chapeleiro. O armazém de vinhos finos. Os sapateiros. Os Tem-Tudo, desde as tripas de porco para o fumeiro até às sementes da couve penca. O armazém da Cooperativa na Rua Direita onde comprávamos o bacalhau de cura amarela onde um velho (sempre velho) embrulhava a peça inteira numa bela e forte folha de papel ferro. E os caixeiros viajantes que municiavam os comércios. Traziam malas muito grandes, muito bem arrumadas, alinhadas nas carrinhas Peujeot e tapadas com mantas. Quando abriam os mostruários era todo um novo mundo que se mostrava. As novidades que saíam das malas arregalavam as meninas dos olhos dos compradores: “ ponha-me uma dúzia destes, aqueles não que se vendem mal”.

As cidades e aldeias que morrem aos poucos. Tantas janelas fechados nas ruas que nos levam ao castelo. Triste, muito triste. Muitas perguntas para as quais nós sabemos a resposta: foram--se embora, fecharam, demoliram-se, morreram…

Mas talvez, haja uma esperança. Por estes dias, as ruas enchem-se de vozes, ainda que saídas de pequenas colunas espalhadas pela cidade. Talvez outras vozes se juntem, saiam de casa, regressem, acordem dum sono profundo e interminável. Talvez as crianças se multipliquem e alegremente, deslizem no gelo, indiferentes aos horários e obrigações. Talvez os presépios induzam uma fertilidade nas gentes desiludidas e conformadas.

Talvez. Talvez sim. Eu gostava. Eu gostava que aqueles que partiram, voltassem. Estamos prontos para os receber.

Rui Machado