sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Balcão de Agradecimento


Desorientado, percorria o corredor da ala de Medicina-Homens parando em cada porta. Com toda a calma, trocava os óculos de ver ao longe pelos de ver ao perto e lia os letreiros, sem pressa, no vagar próprio de quem já há muito encontrou o ritmo certo dos seus dias. O segurança pediu-lhe que seguisse, que não interrompesse o corredor. Tomeno, imperturbável, continuava a sua procura. Tinha ideia que era do lado direito, sim, era, via-se até o heliporto e a azáfama das chegadas e partidas dos doentes urgentes.

BALCÃO DE ATENDIMENTO

Era ali! Feliz com a descoberta, dirigiu-se ao balcão onde uma senhora com ar enfadado, espreitava por cima dos óculos, lamentando-se do sistema informático que estava outra vez em baixo e dos calores inesperados, próprios de transições a que ninguém escapa. Indiferente ao mal-estar da senhora, Tomeno preparava-se para falar quando, bruscamente, foi impedido. Que esperasse pela sua vez. Que já lá tinha estado de manhã. Qual era a dúvida?

- É para combinar as coisas bem combinadinhas… São dois ou três dias? Hoje de manhã, ao chegar a casa fiquei com essa dúvida.

Que esperasse, que tinha gente à frente, que isto e mais aquilo. O Tomeno só queria saber quanto tempo ia ficar internado. Dois, três dias? Estaria preocupado com o seu estado de saúde? Andava com uma pontada ali, no lado esquerdo. E outros sinais que nem queria valorizar. Também andava esquecido, não punha sentido nas coisas, não ouvia bem, as digestões sobressaltavam-lhe as tardes, andava com dores de cabeça, cegavam-no as cataratas, fraquejavam-lhe as pernas, tinha dificuldades em respirar… Tudo a desandar! Um corpo que falia lentamente.

Seria de esperar que andasse preocupado com a sua saúde. Naturalmente, lamentava a vida que lhe fugia. Interiormente, queixava-se da sua condição fragilizada. Mas quase inexplicavelmente, a sua urgência era outra. A sua angústia não se devia à lenta falência do seu velho corpo. A sua preocupação não passava pelo seu bem estar…

Quando finalmente pôde falar, pausadamente foi dizendo que precisava saber quantos dias seriam de internamento. Tinha de ser tudo muito bem combinadinho. Tinha de ter certezas. Não podiam restar dúvidas. Dois dias seria diferente do que se fossem três. A Matilde aguentava uma semana se fosse necessário, olha logo essa que não lhe ligava nenhuma. Quando andava na vida dela, não passava cartão a ninguém. Às vezes descuidava-se e lá vinha ninhada para o Tomeno cuidar e era um problema minha senhora, ninguém queria gatos. O problema era outro, e bem mais grave. Estava muito ralado com aquilo. O melhor era adiar a cirurgia, talvez falando com o Sr. Dr., nem era urgente, até já estava a sentir-se melhor.

- A Belinha não aguenta mais que três dias…

A Sr.ª dos óculos na ponta do nariz, atrapalhada com os calores das tais transições, fartinha de mas mas e ses e ses, atirou:

- Mas que diz você homem de Deus, quem é a Matilde?

- É uma gata.

- E a Belinha?

Endireitando as costas, corrigindo a postura, salivou a boca e do mais fundo da sua gratidão, disse enternecido: 

- É uma cadelinha que lá tenho.


Rui Machado


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Sai dessa noite fria




Pela noite dentro, envolta no nevoeiro, a Lua já ia alta. As folhas velhas de outono estalavam sob o corpo arrastado de Sebastião. Num andar dez e dez à Charlie Chaplin, arrastava os pés um depois do outro. As solas dos sapatos já gastas, mostravam um andar cansado e insinuavam umas meias encardidas pelo tempo que tudo leva, gasta e cansa. Sebastião regressava a casa. Gastara a noite na sala de espera da estação rodoviária. Sentia-se bem por lá, varrendo o chão com o seu andar arrastado, de um lado para o outro, vigiando as chegadas e as partidas dos autocarros.

Na vida de Sebastião houve muitas chegadas e partidas. Queimara as forças da juventude carregando mercadorias nos vagões da CP. Em 75 regressara de Angola onde fizera uma guerra que diziam também ser sua, lutando pela soberania duma metrópole que ele não conhecia. Lembrava-se das lições dos livros da escola primária e das palmatoadas da professora Perpétua. Ensinamentos que duram até hoje, gravados nas palmas das mãos. Só conheceu Lisboa quando foi para a guerra e quando dela voltou. No regresso, andou uns dias perdido em Belém, junto ao Tejo, em labirintos de caixotes de madeira. Procurava uma vida que tinha deixado em África, terra de todos os cheiros e de mulheres de pele de ébano, de curvas generosas, submissas e de sorrisos autênticos. Passou uns meses numa pensão paga pelo IARN, o Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais. Não resolveu a vida pela capital. Regressou à terra, ele e mais 16 000 almas que regressados a Bragança, constituíam 10% da população residente desse distrito longínquo e esquecido.

Passaram quarenta anos, corria novembro dum outono interminável. A noite continuava fria e as poucas folhas das árvores anunciavam a proximidade do inverno e das noites longas. Regressava a casa deixando o quente da sala de espera da rodoviária. Chegando a casa, a rotina diária: como sempre, penduraria no bengaleiro da entrada o casaco de lã, têxtil grosso n.º 2, azul petróleo. Descalçaria os sapatos, conferiria a evolução dos joanetes e calçaria os chinelos de chambre comprados em Calabor. Não gostava das noites passadas em casa. Noutros tempos, seria altura de provar o vinho novo e comer castanhas numa qualquer taberna da cidade, dando sempre primazia à do João Francês, na Rua do Norte. Sempre que o Francês se altercava com a mulher ou abusava das provas com os fregueses, a taberna não abria. Nessas noites, Sebastião rumava às tabernas da Estação de Caminhos de Ferro. Não gostava. A Estação dos Comboios trazia-lhe memórias de outros tempos que não gostava de revisitar. 

Foi numa dessas noites que conheceu Batilde. A solidão de muitos anos e um corpo que de quando em vez, ainda pedia atenções, fizeram-no sorrir a Batilde. A vida tornara-o um homem amargo marcado pela guerra de África e pelo fim dos comboios. Era um solitário. Não se lhe conheciam amigos e de familiares não havia notícia. As portas da taberna do judeu já estavam fechadas. Sebastião e mais um par de bêbados, bebiam as últimas taças de tinto. O grau forte do tinto das Arcas dera-lhe a destreza necessária para sorrir a Batilde. Aparentemente, Sebastião não se importou com a condição de Batilde, mulher da vida que tentava enganar os ébrios atoleimados nas noites longas de desvario. Batilde era um resto de civilização. Pobre, feia e mal amanhada, sobrevivia prestando favores aos que, tal como ela, jaziam pelas cercanias da estação, esquecidos por todos e convenientemente ignorados pelas famílias. Ela não sabia contar a sua história de vida. Não conhecia as palavras necessárias para o relato. A sua destreza intelectual só dava para arranjar maneira de conseguir a malga de caldo que lhe aconchegava o estômago cansado de reclamar. O seu ciclo intelectual recomeçava na última colher de sopa, pensando de imediato quando comeria a próxima… Uns dizem que Batilde viera servir para a cidade em casa de gente rica mas que o patrão a tinha prenhado, desvario que a levou à expulsão da condição de criada de servir da fidalguia. Outros dizem que não resistiu aos avanços persistentes de um marçano que vendia tecidos na retrosaria Confiança. Dizia-se que durante dez dias, fugiram os dois para Espanha onde, em pouco tempo, sacrificaram as economias do marçano. Viveram de expedientes mas não tardaram a ser escorraçados de volta, devidamente escoltados pela Guardia. Duas noites dormidas no Governo Civil e uns favores a crédito ao oficial de justiça,devolveram Batilde à rua, donde não mais saiu.

Naquela noite, Batilde sorriu o seu melhor sorriso a Sebastião, apesar da dentição descuidada, fazia promessas de atenção e insinuava um iminente conforto nos seios abalados, desgraçados pelos ossos do ofício e pelo uso excessivo. Sebastião achou-a bonita. Apreciava a generosidade das carnes há muito curadas. Sem falar, dirigiu-se à mesa do canto e ofereceu um copo de tinto a Batilde. Ela não se fez rogada e de um só trago bebeu o vinho martelado, feito com as águas do ribeiro e com os pós para o vinho comprados no boticário da avenida. Ao beber, fez um esgar de desconforto, alisando a proeminência abdominal, reclamando a ausência de sustento. Percebendo a intenção, Sebastião pediu ao judeu um pedaço de carne gorda e já agora, porque era dia de festa, um cesto de pão e azeitonas. Enquanto Batilde comia, Sebastião olhava-a enternecido. Satisfeitas as necessidades alimentares, as horas tardias aconselhavam o regresso a casa. Sem dizer nada, Sebastião pegou na mão de Batilde e levou-a consigo. Ela não oferecera resistência nem dissera nada. Pelo caminho, dois seres errantes, varriam as folhas da rua, arrastando os pés, ela mancando, ele com os pés de lado. Quem apreciasse o quadro à distância, veria o vapor que saía das suas bocas ofegantes. No caminho, ele à frente, a dez metros atrás, ela. 

E foi assim que Sebastião conheceu Batilde. E foi assim que Batilde resolveu o problema da próxima malga de caldo. Naquela noite, chegados a casa, Sebastião mostrou o quarto a Batilde. Rotinada na sua função, preparava-se para atender as necessidades de Sebastião. Com um simples gesto de mão, o velho negou os preparos.

- Não é preciso, descansa e dorme. Primeiro temos de nos conhecer, de nos aproximar. 

A mulher incrédula, aproveitou as tréguas e esticou o corpo na humilde enxerga. Depois de tantas privações, dias, anos de desconforto, pareceu-lhe um aposento Real. Batilde dormiu doze horas seguidas. Quando acordou não sabia bem onde estava. Passou a flanela dos lençóis pela face e julgou-se no paraíso. Abraçou a almofada de sumaúma e espreguiçou-se mais uma vez. Fora tão bom poder dormir numa cama só para ela sem ter de a partilhar com bêbados mal cheirosos ou outras colegas da vida. Tantas noites mal dormidas ao relento, nos bancos do jardim, sem dinheiro para pagar o quarto lúgubre e bafiento. Levantou-se, os ossos reclamaram mais descanso. Contrariados, lá se encaixaram e sustentaram um corpo abalado e dormente. Chinelando pelo quarto, deparou com a sua triste figura. Olhando para o espelho, vislumbrou a sua triste condição: velha, suja, um trapo, andrajosa, torpe. Feia. No silêncio do quarto, chorou. Sem rumo e sem forças, sentou-se de novo na cama, escondendo a face com ambas as mãos. Soluçando. Sofrendo com o seu destino. O conforto das horas bem dormidas, desapareceu num ápice. Esfumou-se. Por breves momentos, quase se sentiu normal. Com vida. Com objetivos. Com memórias. Com sonhos. Tudo efémero. A dureza dos traços da sua face devolveu-a à realidade. A crueldade que o espelho refletia não dava esperança. Pareceu-lhe durante a noite ter sonhado com uma vida ao lado de Sebastião. Parecia um bom homem. Meigo. Calmo. Podia, talvez, ter uma vida. Não pedia muito. Paz e um pouco de calor nas longas noites de frio. E uma côdea a horas certas. E poder tomar banho de água quente. Em poucos minutos pensou em tanta coisa, quase conseguiu arrumar algumas ideias. Não era habitual. Para não sofrer, desistira de pensar. Sobrevoava os dias com fome, miséria e solidão.

Sebastião bateu levemente na porta do quarto, entreabriu-a e deparou-se com Batilde a chorar, dobrada sobre si, reduzida, mínima.

- Anda! Vem! Não chores. Sai dessa noite fria. Está um dia bonito lá fora. Vamos passear. Preparei-te umas roupas e um banho quente.

No quarto de banho, Batilde desfez-se dos andrajos e mergulhou o corpo em água quente. Deixou-se estar por breves momentos. Estranhou aquele bem-estar repentino, suavemente o corpo foi relaxando. Recostada, fechou os olhos e percorreu o corpo com as suas mãos, radiografando as marcas de uma vida de sofrimento. Cada mazela tinha um nome, um momento… No seu corpo havia vestígios de muitos homens, restos de abusos, detritos de vidas desnorteadas. Massajou o pescoço e os ombros. Sentiu os seios intumescidos, resultado de prazeres há muito esquecidos. Tocou-se. As entranhas queixaram-se, retraindo-se, desabituadas que estavam de toques delicados. 

Naquela água suja, ficariam os resíduos de vidas passadas.

novembro de 2016

Rui Machado

O velho que dormia no carro




Pouco depois de ter escolhido este lugar para viver comecei a perceber as rotinas dos visitantes do cemitério. Há-os de vários tipos. Em maior número, as viúvas. Parece que nós homens, nos estragamos mais ao longo da vida. Morremos mais cedo. A julgar pelo número de viúvas que visita regularmente o meu cemitério, há mais viúvas que viúvos. Eu fujo à regra. Sou viúvo, parece-me. Não tenho ninguém comigo. Acho que sou viúvo não só de mulheres mas de mais coisas boas da vida. E também não venho visitar ninguém. Vivo aqui. Vivo no cemitério. Melhor, vivo à porta de cemitério da minha cidade. Quando cá cheguei, estacionei o meu velho 240 D de trinta anos e por aqui fui ficando. Vou mudando o carro de lugar para fugir ao sol. Só me ausento do parque para ir ali à associação comer uma sopa. Ao meio dia. Vou a pé. O carro fica a guardar o lugar. Aquele lugar é meu, ninguém mo tira. Os bancários que trabalham ali perto, reclamam muito. Alguém devia por termo a isto. Como é possível em pleno século XXI? Mas depressa vão embora, apressados nos seus fatos italianos tecidos nas garagens clandestinas de Guimarães.

Eu não incomodo ninguém. Estou por ali. Não falo. Já nem me lembro do som da minha voz. Só da minha voz interior. Falo muito comigo. Tenho tanta coisa para falar comigo… Faço-me muitas perguntas. Eu acho que tenho uma vida para trás. Não consigo recordar. Todas as pessoas me parecem estranhas. Desconheço também a minha identidade. Não tenho papeis. Devem estar no porta luvas-luvas mas não quero abri-lo. Não quero saber do meu passado. Tenho medo do que possa descobrir. Uma noite destas, mais longa que o habitual, um ímpeto incontrolável quase que me desgraçava: abri o porta-luvas do velho 240 D. Foi só uma espreitadela! Juro! Fechei novamente. A curiosidade morreu. Ignorância bendita que faz de cada dia um dia novo. Todos os dias, um novo dia. Todos os dias sou uma pessoa diferente. Por exemplo, hoje sou escritor, estou a escrever um livro. Começo todos os dias um livro novo porque todos os dias, os dias e eu somos novos. Ontem ajudei o coveiro a abrir uma cova. Tenho força e não sabia. Ajudo os jardineiros a cortar a relva e eles, em troca, deixam-me tomar banho de mangueira, ali, por trás daquele cedro. Carrego as compras daquela senhora velhinha que vive ali no número 13. Ela dá-me uma maçã. No Natal deu-me uma chouriça e eu comi-a todo consolado. Eu e o Perdido, um patudo que me faz companhia. O Perdido é bom rapaz porque não faz perguntas. Trago-lhe pão seco lá da associação e fica todo contente. Parece gostar de ser meu amigo, o Perdido. Quando anda às cadelas, fico sem o ver um par de dias. Depois lá aparece, magro como aquilo que ele é, sarnento e dentado pela disputa das cadelas com cio. Às vezes, também me lembro de fêmeas. Andam ali umas ao pé da estação que já se meteram comigo, mas não gosto delas. São feias. Gosto duma que vem ao cemitério às Quartas. Chama-se Rosa. Sai sempre muito chorosa. Veste sempre de negro mas eu gosto dela. Roubo sempre uma rosa do jardim e quando a vejo sair, vou a correr e dou-lha. Nas primeiras vezes, teve medo de mim. Agora não. Estende a mão para recolher a flor e sorri. Sempre que sorri, fico quieto a olhar para ela. Ali de pé. Quieto. Eu e o Perdido. Os dois a olhar para ela, a vê-la ir-se embora. Se eu falasse dizia-lhe que se podia encostar no meu peito e chorar. Se lhe apetecesse. Ou então, convidava-a para ir comer uma sopa comigo, lá na associação. Mas o que me apetecia mesmo dizer-lhe, era que não chorasse mais, que não ficasse outra vez triste. E que viesse visitar-me mais vezes.

Gosto de todos os dias menos de um: o dia dos defuntos. Não gosto porque vem muita gente ao cemitério e desarrumam-me a casa toda. E acham que eu sou um pedinte e querem dar-me esmolas. As pessoas, nesse dia, estão muito caridosas. À maior parte, só os vejo nesse dia. 

Eu vou continuar por aqui. Eu e o Perdido. Perdidos os dois. Achados os dois.

setembro de 2016

Rui Machado

Sargaço, Sol e Fogo




Descanso. No ar sente-se o cheiro do sargaço. Os pulmões acomodados ao ar pesado das cidades estranham o cheiro forte. Um homem de face queimada e costas curvadas, junta pequenos montes de algas que o mar oferece à areia da praia. Em pequeno ouvia dizer que o sargaço servia para fazer medicamentos, cosmética e para fertilizar as terras. Dar vida. Mantê-la bela. Curá-la. 

Mergulho nas águas geladas deste mar a Norte. As algas agarram o meu corpo procurando um ponto fixo, qual metáfora de migrante à procura de terra firme. Ao meu lado, duas jovens repudiam a presença da flora marítima saindo da água a correr para o conforto das toalhas. Mantenho-me quieto, recordando os tempos em que falava com este Atlântico que agora, talvez pelos rigores da idade adulta, parece não me conhecer. Eu. Aquele que te visitava uma vez por ano. No tempo quente. Talvez não te lembres. Foi há muitos anos. Não me reconheces. Estou diferente. Estou velho e cansado. Disforme e triste. Não. O meu olhar está diferente? Já não te olho como naquele tempo em que sentado na areia, durante longas horas, tentava adivinhar os caprichos das ondas. Eu ainda gosto de olhar para o mar. Sim. Talvez nem sempre o veja. Tem razão o mar. Ainda há dias alguém se zangava comigo por ter olhado mas não ter visto. Desculpa. São estes meus mundos que se fecham e estranham a vida mundana.

Ainda na água, equacionei a possibilidade do banho libertador. Olhei em redor e percebi que não seria recomendável porque vida humana pululava por perto. Tirar os calções, ainda que na água, não me pareceu recomendável. Depois de mais umas braçadas redentoras, ouvi os ossos rangerem e as articulações estalarem. São longos os invernos. Demasiado longos. Estendido na toalha entrego-me ao Deus Sol. Estou nas suas mãos. Quase que levitando, ouço ao longe o pregão do vendedor de bolas de Berlim, uma família que joga às cartas e o barco a motor, em contraste com o ócio reinante, sai à procura do sustento.

Vou embora. No regresso, tempo ainda para olhar para as fileiras de barracas listadas, qual imagem parada no tempo, imutável. Ainda bem. Despeço-me do mar e peço-lhe desculpa pela indiferença do meu olhar e pela minha ausência de muitos anos. Pediu-me que seguisse. Rumo ao meu horizonte, como o barco a motor que partia à procura do sustento. E que fosse feliz. Assim será.

No ar, sente-se um cheiro a queimado e pequenas faúlhas invadiram a atmosfera. O fogo dos homens, mais uma vez, tudo consome.

agosto de 2016

Rui Machado



Nepente



Gosto do silêncio dos cemitérios. Aprecio a paz fresca das igrejas nestes dias caniculares. Fujo do bulício da cidade que se agita e alimenta de vidas inquietas. Silêncio. Preciso de silêncio. Ouvir-me. Escutar-me. Proteger-me. Anseio pelo marulhar das vagas que chegam e que logo partem. Procuro uma que me leve com ela na sua crista, amparado, aconchegado. Uma que me distancie para longe, muito longe, onde ninguém me possa ver. Talvez lá ficar. Ou não. Quiçá voltar no regresso dos que sempre voltam. Por mais que voe, navegue, caminhe, tenho sempre o regresso por certo. Garantia de sempre voltar ao ninho que me acolhe e protege.
- Voltas sempre?
- Sempre volto.
- Mas com quem falas nas madrugadas quentes?
- Falo com Nepente.
- Quem é Nepente?
- Não sei dizer. Nepente dissipa a dor. Ajuda-me a esquecer a tristeza e o sofrimento.
- Deve ser bom falar com Nepente…
- Nepente chama-me raio de Sol. Sara as minhas feridas e aquieta-me. Apazigua-me. Serena-me.
- E o que mais faz Nepente? Ela fala?
- Quase nunca. Ouve. Quando o faz, escolhe as palavras certas, no tom adequado, num ritmo pausado, na cadência do meu batimento cardíaco, nos intervalos das minhas muitas palavras.
- Eu gostava de beber Nepente…
- Porque não bebes? Nepente está em todo o lado. Procura. Encontrarás.
- Mas se a vires, falas-lhe de mim?
- Nunca a vou ver, não lhe posso falar de ti.
- Onde estará Nepente? Quero ir ter com ela. Falar com ela, ouvir as suas poucas palavras. Sossegar no seu sossego…
- Não é ela nem ele. É Nepente. Eu encontrei. Procura. Encontrarás.
No silêncio do meu quarto, o corpo dorido acorda aos poucos. Adormecera. Nepente tinha feito das suas. Tal como Helena de Troia fez a Telémaco. Poisei o livro na mesinha de cabeceira. Recostei-me. Adormeci de novo. Nessa noite, as sombras não apareceram.

Rui Machado

julho de 2016

domingo, 17 de julho de 2016

Ninguém olha para o guarda-redes

Uma vez, no Liceu, na aula de Literatura Portuguesa, no tampo de uma mesa apareceu a seguinte frase:

Todos me olham quando estou bêbado, ninguém me vê quando estou sóbrio!

Achei a frase interessante, ficaria bem na minha velha capa de couro onde transportava os livros, aconchegados por um elástico largo e devidamente guardados por Camilo Castelo Branco que, de perfil, estava gravado na capa. Por eu ter uma caligrafia desprezível, pedi a um colega com ar de Billy Idol que me escrevesse a frase na capa. O meu amigo Punk, nas aulas de Literatura, sobrevoava as prédicas do Dr. Mário da Conceição fazendo uns desenhos que só ele entendia. Escrevia também umas frases esteticamente interessantes e de conteúdo filosófico que me remetiam para estranhos mundos que eu escolhi não trilhar.

Anos passados, já possuidor de mais peças para montar esta coisa a que chamam vida, fui percebendo que num milhão de peças Lego, todas me parecem iguais, encaixando entre si na perfeição, construindo assim os nossos dias. Mas se uma aparece com defeito, uma só que tenha escapado ao controle de qualidade, toda a obra pode estar em causa. 

Não raras vezes me senti uma peça com defeito. Outras houve em que me senti parede mestra. Numa e noutra condição, a nossa visibilidade entre pares é matéria complicada de abordar. Há por aí muita formiguinha laboriosa que ninguém vê. Já da cigarra cantante todos parecem gostar. De entre os invisíveis, em lugar cimeiro está o guarda-redes.

Na ressaca da epopeia futebolística, fuzilados que fomos com a excessiva cobertura mediática, apetece-me falar do guarda-redes, esse incompreendido e mal amado. Ele que desafia as leis da física e coloca a sua integridade na ponta das botas dos avançados e mesmo assim parece não merecer a consideração de ninguém. O injustiçado que nunca defende um penálti porque aos olhos de todos, o marcador é que falhou. A desfeita vai ao ponto de dizer que por onde ele pisa, nunca mais cresce a relva.

O texto que se segue, El Arquero, de Eduardo Galeano, retrata as angústias do homem que apesar de trazer nas costas o número 1, ninguém reconhece como primeiro. As palavras rudes de Galeano retratam o destino injustiçado do homem das luvas. Injustiçado mas herói cimeiro.


El arquero (por Eduardo Galeano)

También lo llaman portero, guardameta, golero, cancerbero o guardavallas, pero bien podría ser llamado mártir, paganini, penitente o payaso de las bofetadas. Dicen que donde él pisa, nunca más crece el césped. Es un solo. Está condenado a mirar el partido de lejos. Sin moverse de la meta aguarda a solas, entre los tres palos, su fusilamiento. Antes vestía de negro, como el árbitro. Ahora el árbitro ya no está disfrazado de cuervo y el arquero consuela su soledad con fantasías de colores.

Él no hace goles. Está allí para impedir que se hagan. El gol, fiesta del fútbol: el goleador hace alegrías y el guardameta, el aguafiestas, las deshace.

Lleva a la espalda el número uno. Primero en cobrar? Primero en pagar. El portero siempre tiene la culpa. Y si no la tiene, paga lo mismo. Cuando un jugador cualquiera comete un penal, el castigado es él: allí lo dejan, abandonado ante su verdugo, en la inmensidad de la valla vacía. Y cuando el equipo tiene una mala tarde, es él quien paga el pato, bajo una lluvia de pelotazos, expiando los pecados ajenos.

Los demás jugadores pueden equivocarse feo una vez o muchas veces, pero se redimen mediante una finta espectacular, un pase magistral, un disparo certero: él no. La multitud no perdona al arquero. Salió en falso? Hizo el sapo? Se le resbaló la pelota? Fueron de seda los dedos de acero? Con una sola pifia, el guardameta arruina un partido o pierde un campeonato, y entonces el público olvida súbitamente todas sus hazañas y lo condena a la desgracia eterna. Hasta el fin de sus días lo perseguirá la maldición.

in El fútbol a sol y sombra y outros escritos de Eduardo Galeano

sábado, 2 de julho de 2016

A Praça do nosso contentamento



A Praça Camões estava repleta de gente focada no grande ecrã ali montado para ver a bola. Um silêncio de cemitério, preenchia o ambiente, enquanto olhares expectantes tentam distrair o polaco que se preparava para marcar a grande penalidade. Emparedado entre o Cinema Camões e o Liceu, na magia do tempo, fugiu-se-me a lembrança para outras noites…

Debaixo das arcadas, o Cachimbo Xixeiro afiava a faca, pronta a cortar com mestria a peça de vitela que pendurada no gancho, aguardava pela sua vez. A Tia Aurora que ganhava a vida a vender leguminosas, maltratava uma cliente burguesa que se atrevera a desdizer dos seus feijões. O Sr. Zé Espada, estacionava com dificuldade a camioneta Bedford, série “J”, o primeiro modelo a ser produzido, em 1963, na General Motors da Azambuja. O Milhão vendia vasos e outros cacos, cães de louça e flores artificiais. A Rebordonas vendia casqueiro e grelos. O Peixeiro sacudia as moscas. O Chefe Maurício agarrava o cinto das calças e cofiava o bigode, esticando os beiços, numa manifestação de autoridade não fosse ter de correr atrás de algum meliante. Os namorados aproveitavam a distração dos pais e fugiam, à socapa, para o Jardim António José de Almeida e acobertados pela proteção frondosa das tílias, trocavam os beijos possíveis.
O Chico Naireco, guardador do Jardim, tomava conta dos pimpões que a pequenada alimentava, na pequena taça que já não repuxava. Migalhas de pão alimentavam os pardais, nervosos e irrequietos. Nas latrinas, o Elvis fazia mais uma viagem nas fumaças e ácidos, sobras dos meninos ricos da cidade. No Floresta saía mais uma tosta mista das mãos sisudas do Sr. Teixeira. A D. Alice, Santa Alice, aturava os estudantes enfrascados de subarus e charabanadas. Na esplanada fermentavam amores proibidos, fechados em armários que o tempo demorava em abrir. Olhares furtivos, de sinalética codificada, congeminavam transações de outras vidas, daquelas que nunca se encaixam e se auto destroem. Nos buracos dos muros do jardim, rebentavam bombas de Carnaval, compradas às escondidas na Tabacaria do Jesuíno. O Coreto enquadrava as verbenas e parece que ainda se ouvem melodias de outros tempos. Ouve-se também o cantar dos números do Bingo do GDB: o 1, sozinho, o pilinhas; o 88, as maminhas da Amália…

As lembranças desorganizam-se e vejo agora o Polis, pelo meio, o Fervença, limoso, flui sozinho, enfraquecido pelo decorrer do estio. Os peões, à falta de velocípedes, ocupam a ciclovia e refilam às modernices da juventude e dos que teimam em ser elegantes.

De volta ao Mercado, o Cachimbo desfez a peça de vitela. O Peixeiro vendeu os carapaus aos pobres e a pescada chilena ao Dr. Nalguinhas. A Tia Aurora vendeu o melhor feijão manteiga da temporada. O Milhão tratou mal a canalhada que lhe roubou um par de fisgas. O Chefe Maurício adormeceu de tédio.

No grande ecrã, o Quaresma selou o 5-3 final, depois do Patrício defender o quarto remate dos polacos, um tal de Blasczkowski. No empedrado, ouve-se a borracha dos pneus da Bedford do Zé Espada, o motor 220 Diesel de 3614 c. c., queixava-se da vida que levava.

Acabado o jogo, o povo voltava para casa sem pensar no Brexit ou nas hipotéticas sanções da União Europeia. Que Diabo! Estávamos nas meias-finais.

Como dizia o último ébrio que saía do Floresta: Que se f… o mundo! 

RM