sábado, 12 de março de 2016

Pelo risco de Viana de Lima - Complexo Hospitalar - Bragança


Hospital de Bragança

(fotografias de março de 2016)

Início de construção 1957

Inauguração 1973


Os primeiros estudos para o Hospital Regional de Bragança, datam de 1948, ano em que se conjeturaram novas direções no 1.º Congresso Nacional da Arquitetura, e se inicia a publicação da tradução da Carta de Atenas na revista Arquitectus. O projeto recomeça em 1960, mantendo a ideia inicial de uma adesão convicta à importação de modelos e valores do Estilo Internacional. A modernidade que, desde logo, o edifício convoca, remete de imediato para uma inferência corbusiana, expressa na volumetria geral do edifício, no controle da luminosidade, explorando a variação dos efeitos de sombra sobre a fachada através da solução de uma grelha laminar de betão, na aplicação dos novos métodos de construção, norteando a arquitetura entre quatro valores gerais – “Ambiente, gosto, espírito e engenho.” Orientação que visava, igualmente, um projeto crítico de ordem ideológica, sonhando como “ a única forma de dar aos homens, alegria e otimismo, e às cidades, vilas e aldeias a forma radiosa proposta na Carta de Atenas.” – Viana de Lima, 1948
Do complexo Hospitalar na cidade de Bragança destacam-se: Hospital, Casa Mortuária, Anatomia Patológica, Hospital de Dia, Dispensário de Higiene Mental, Lar e Escola de Enfermagem.
Segundo informação disponibilizada pela Direção-Geral do Património Cultural na sua página de internet, o imóvel não tem qualquer classificação e como consequência não tem proteção legal. O procedimento do processo de classificação do Hospital de Bragança iniciado em 2007, caducou. A pretensão inseria-se no âmbito do Projeto de Classificação do Património Arquitetónico Português do Século XX levado a cabo pelo Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) e contemplava o Hospital Regional e Centro de Saúde Mental.








































Outros Edifícios do Complexo Hospitalar

Escola de Enfermagem (atual Escola Superior de Saúde - IPB)


Pormenor da entrada da Escola Superior de Saúde

Escola Superior de Saúde

"Dispensário de Saúde Mental"

"Dispensário de Saúde Mental"




A arquitetura de Viana de Lima em Bragança

1 - O legado do Arquiteto Viana de Lima

“ É possível afirmar que uma boa parte dos aglomerados portugueses possuem uma individualidade, que sem ser extraordinária, é bela na sua simplicidade, Bragança é um destes casos: cabeça de uma região cheia de pequenos núcleos que se agarram à terra com a poderosa força dos liquens, ela própria é, em substância e em expressão, como um deles, só muito maior. – Viana de Lima” (1)
A obra de Alfredo Evangelista Viana de Lima é incontornável na arquitetura Moderna em Portugal. Em junho de 2011, Luís Ferreira Rodrigues, arquiteto Bragançano, na evocação da Exposição de 1951 e dos 60 anos da ODAM (Organização dos Arquitetos Modernos), apresenta-nos Viana de Lima: (2)
“ De entre os 36 arquitetos e estudantes de arquitetura que integraram a ODAM, sobressai a figura e personalidade e a obra de Alfredo Viana de Lima (1913-1991), que contrastava uma postura reservada e de contido protagonismo com um vibrante entusiasmo pela arquitetura e ideais do Movimento Moderno, e em especial pela obra de Le Corbusier, as suas ideias progressistas, e a promoção das potencialidades da técnica e dos novos materiais.”
Por alturas da Exposição sobre a Arquitetura de Viana de Lima em Bragança, em março de 2005, foi possível aprofundar o conhecimento sobre o “Arquiteto de Vanguarda”: (3)
“O Senhor do Movimento Moderno, o Arquitecto de Vanguarda como o intitulam, encontra--se ligado à Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais entre os anos de 1938 e 1941. Vêmo-lo percorrendo vários países com o simples objetivo, de melhor compreender os problemas existentes na Arquitetura e no Urbanismo. Dos países visitados contam-se a Bélgica, o Brasil, a Espanha, a França, a Holanda, a Inglaterra, a Jugoslávia, a Itália, a Suécia e a Suíça. Em 1948 com a idade de 35 anos apresenta ao I Congresso Nacional de Arquitetura em Lisboa, a tese sobre «O Problema Português da Habitação.» Viana de Lima defende como instrumento técnico a utilização da Carta de Atenas, elaborada nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) com Le Corbusier.”
Viana de Lima é consensualmente reconhecido em Portugal como um expoente da Arquitetura Moderna, um dos poucos que nunca se encontrou com ajustes contemporizadores de linguagem e cuja produção conhecida é desde o início ao fim da carreira uma límpida sequência de obras sem compromisso. A partir dos anos 60, dedicar-se-á a importantes tarefas de levantamento e reabilitação de imóveis históricos e planeamento de antigas zonas urbanas. Graças ao trabalho desenvolvido, inicia uma carreira de consultor internacional da UNESCO que o indica para um plano a desenvolver sobre a cidade histórica de Ouro Preto no Brasil. Este caminho profissional surge na sequência do trabalho desenvolvido na cidade de Bragança, 1961, com a elaboração do Plano Parcial de Urbanização compreendido entre o Lugar das Beatas e o Governo Civil. Este Estudo foi o passaporte de entrada do arquiteto português na área da preservação do Património em várias cidades do Brasil. Entre os anos de 1968 e 1977 foi por diversas vezes ao Brasil como consultor da UNESCO, com o objetivo de estudar o Plano Diretor da cidade mineira de Ouro Preto, ameaçada de corrosão, sendo esta considerada património histórico e artístico do Brasil. Fez estudos e projetos ao nível da preservação, revitalização e expansão de várias cidades históricas tais como: S. Luís e Alcântara no Estado do Maranhão, Laranjeiras, S. Cristóvão e outras. (4)

Figura 1 - Cidade de Ouro Preto, Brasil

Figura 2 - Viana de Lima em Ouro Preto em 1972


Figura 3
Eng.º Adriano Augusto Pires
Presidente da Câmara Municipal de Bragança de 1954 a 1967




Foi na gestão camarária do Eng.º Adriano Augusto Pires, entre os anos de 1954 e 1967, que na reunião de câmara de 15 de julho de 1960 se autorizou o Presidente da Câmara Municipal de Bragança a outorgar o contrato de prestação de serviços com o arquiteto Viana de Lima para a elaboração do plano regulador do desenvolvimento urbano da cidade de Bragança. Viana de Lima estabeleceu um contrato com a Câmara Municipal de Bragança como consultor urbanista, elaborando o Plano Regulador da cidade, com o limite de 295 hectares. O Plano seria organizado em quatro vetores: vias, parte velha, centro cívico e expansão. O Plano aplicava os princípios modernos defendidos por Viana de lima: separação de vias; habitações em bloco; implantação segundo a melhor exposição solar; espaços livres abundantes; preservação da unidade arquitetónica da parte velha da cidade e criação de novos equipamentos de apoio à habitação. 
No seu planeamento, Viana de Lima, introduz alterações na área de intervenção procurando compatibilizar novos e antigos elementos. Sobre esta matéria, vejamos a análise de Eduardo Fernandes (5), complementando as descrições de Fátima Fernandes e outros na obra Mapa da Arquitetura de Bragança: (6)
Viana de Lima produz, no início dos anos 60, obra com notórias influências regionais na cidade de Bragança, influências essas presentes nas moradias em banda do Bairro Novo do Toural e na respetiva escola primária. Nas vivendas unifamiliares geminadas do Bairro do Toural (atual Rua Dr. Adrião Amado, Bragança), saliente-se o desenho das coberturas inclinadas em telha de grande qualidade expressiva e a presença de alguns volumes que constroem um ritmo arquitetónico referenciado na imagem dos magníficos mirantes da cidade antiga, mantendo nesta obra sinais inequívocos de uma linguagem claramente afirmativa da modernidade nos pormenores construtivos das entradas e nas portadas de correr exteriores. No projeto do Bairro do Toural, Viana de Lima faz uma síntese entre o moderno e o tradicional, numa atitude perfeitamente urbana que não deixa de ser influenciada pela arquitetura tradicional da região.
Na pesquisa efetuada sobre o legado de Viana de Lima na cidade de Bragança, agora nos finais dos anos 60 e início da década de 70, deparamo-nos com a tese de Daniela de Almeida Rebelo: Bragança, Transformações Urbanas de uma cidade, cuja leitura permite-nos conhecer mais um pouco o trabalho desenvolvido por Viana de Lima: (7)
Ainda na década de 60, princípios da década de 70, surge uma nova figura associada ao Planeamento da Cidade de Bragança, o Arquiteto Viana de Lima. Substituindo o Arquiteto Januário Godinho na qualidade de urbanista, vai inserir uma nova conceção estética e funcional na cidade, o que implica uma nova revisão do Plano de Urbanização. Como tentativa de dar resposta às muitas necessidades emergentes da urbe, existe referência a uma grande produção de Planos Parcelares, por parte deste arquiteto. Ao contrário do seu antecessor, conhece-se a tradução gráfica das suas intenções para a cidade. Nem todos os projetos foram realizados e a maioria representava novos bairros. Entre os concretizados destacam-se: o Bairro da Estacada, o Bairro São João de Brito e ainda, o Bairro da Previdência. Nesta fase também é da sua autoria a requalificação do Hospital caraterizado pelo significativo acrescento da fachada sul. Documentos como a correspondência entre o arquiteto e a Câmara, são claros indicadores de um acompanhamento regular e interessado da evolução da cidade.
Nos finais da década de 60 e início da de 70, a cidade cresceu, nem sempre respeitando um ordenamento adequado. Surgiram alguns bairros clandestinos, sem suporte urbanístico ordenador. Mais uma vez, Viana de Lima intervém no planeamento urbanístico da cidade no sentido de ordenar o território da cidade. Para debelar este problema, em 1971, o Arquitecto Viana de Lima propõe à Câmara Municipal de Bragança um Plano Piloto que terá como consequência a revisão do Projeto de Urbanização da década de 60. A situação alterou-se, apenas se mantiveram válidas as diretrizes referentes ao esquema viário fundamental. Este novo plano foi aceite, forçosamente, pela necessidade de requalificar e regulamentar a expansão da cidade que estava a surgir.

Figura 4
Pormenor de construção de obras incluídas no Plano de Expansão
 (Bairro da Previdência)

Figura 5
Pormenor de construção de obras incluídas no Plano de Expansão

 (Bairro da Previdência)

2 - Décadas de 60 e 70: a marca indelével de Viana Lima

Elencam-se agora as obras projetadas por Viana de Lima na cidade de Bragança:

1957 – Complexo Hospitalar de Bragança
Os primeiros estudos para o Hospital Regional de Bragança, datam de 1948, ano em que se conjeturaram novas direções no 1.º Congresso Nacional da Arquitetura, e se inicia a publicação da tradução da Carta de Atenas na revista Arquitectus. O projeto recomeça em 1960, mantendo a ideia inicial de uma aderência convicta à importação de modelos e valores do Estilo Internacional. A modernidade que, desde logo, o edifício convoca, remete de imediato para uma inferência corbusiana, expressa na volumetria geral do edifício, no controle da luminosidade, explorando a variação dos efeitos de sombra sobre a fachada através da solução de uma grelha laminar de betão, na aplicação dos novos métodos de construção, norteando a arquitetura entre quatro valores gerais – “Ambiente, gosto, espírito e engenho.” Orientação que visava, igualmente, um projeto crítico de ordem ideológica, sonhando como “ a única forma de dar aos homens, alegria e otimismo, e às cidades, vilas e aldeias a forma radiosa proposta na Carta de Atenas.” – Viana de Lima, 1948 (8)
Do complexo Hospitalar na cidade de Bragança destacam-se: Hospital, Casa Mortuária, Anatomia Patológica, Hospital de Dia, Dispensário de Higiene Mental, Lar e Escola de Enfermagem.
Segundo informação disponibilizada pela Direção-Geral do Património Cultural na sua página de internet, o imóvel não tem qualquer classificação e como consequência não tem proteção legal. O procedimento do processo de classificação do Hospital de Bragança iniciado em 2007, caducou. A pretensão inseria-se no âmbito do Projeto de Classificação do Património Arquitetónico Português do Século XX levado a cabo pelo Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) e contemplava o Hospital Regional e Centro de Saúde Mental.

Figura 6
Construção do Hospital (início de 1970) 
Figura 7
Vista Geral da Fachada do Hospital de Bragança

Figura 8
Vista parcial da Fachada do Hospital de Bragança

1960 – Escolas Primárias das Beatas e Toural
No âmbito do programa das Comemorações do V Centenário da Cidade de Bragança, em conformidade com a solicitação da Direção de Obras e Edifícios Escolares, desenvolveu-se o programa de alfabetização do Concelho. Para o efeito, promoveu-se a construção de mais de meia centena de escolas, duas das quais nas zonas do Toural e Beatas, com o risco do arquiteto Viana de Lima;

Figura 10 - Escola Primária das Beatas
Figura 9 - Escola Primária do Toural




















1960 – Bairro Novo do Toural;
1960 – Parque de Campismo de Bragança;
1963 – Edifício Multiusos, Bragança;
1964 - Edifício do Montepio Geral que inclui: agência bancária, o Cineteatro, estalagem e café-restaurante.

Figura 11 - Edifício do Montepio Geral
Figura 12 - Edifício do Montepio Geral






















1969 – Arranjo urbanístico e loteamentos de S. Sebastião e Estacada;
1970 – Bairros de S. João de Brito e Previdência.

3 – Valorizar a obra de Viana de Lima na cidade de Bragança

É impreterível reconhecer a importância da obra do Arquiteto Viana de Lima no planeamento urbanístico da Cidade de Bragança. À época vivia-se um regime político pouco dado a liberdades artísticas e culturais, limitações óbvias que não impediram o Arquiteto de Vanguarda de trabalhar em prol da preservação do tradicional com valor arquitetónico e ao mesmo tempo planear um ordenamento do território numa fase da nossa história local que poderia ter cedido a impulsos de construção desordenada. Louve-se também, porventura ainda mais, a vontade e força política do antigo Presidente da Câmara Municipal de Bragança entre os anos de 1954 e 1967, Eng.º Adriano Augusto Pires. A visão, arte e engenho nada são sem a força da vontade, do querer e do poder.
A obra de Viana de Lima em Bragança levou a Arquitetura Portuguesa para outros continentes. O exemplo brigantino foi o passaporte para intervenções de grande importância arquitetónica ao realizar projetos de restauro de património antigo português nas ex - colónias como Malaca na Malásia (intervenção na Porta de Santiago, último vestígio da Fortaleza de Afonso de Albuquerque) e, Arzila em Marrocos (reconstrução da Torre de Menagem da Fortaleza). A questão não é de somenos, merece reflexão. Bragança, pelo risco de Viana de Lima, terá sido o tubo de ensaio, o exemplo de preservação histórica e planeamento urbanístico para difundir noutras paragens da Portugalidade.
O incêndio que destruiu o Cineteatro Torralta, serviu para alertar os brigantinos da necessidade de cuidar melhor da nossa cidade. A tarefa não se limita só ao poder político. Cabe também ao cidadão estar na posse dos valores de cidadania que não pode ser só uma palavra de circunstância.
O poder político, com maior ou menor empenho, homenageou Viana de Lima:
- Na toponímia da cidade, existe a Rua Arquiteto Viana de Lima;
- Por iniciativa da Câmara Municipal de Bragança, em 2005, organizou-se uma Exposição sobre a vida e obra de Viana de Lima;
- No mandato camarário do Eng.º Jorge Nunes, instituiu-se o Prémio Municipal de Arquitetura “Viana de Lima” com periodicidade bianual;
- Nos discursos políticos locais, evoca-se o “ Mestre da Arquitetura”…
Muito honestamente, na minha modestíssima opinião, a Cidade de Bragança deve um reconhecimento à memória de Viana de Lima. Mais do que um reconhecimento, o seu legado deve ser preservado, evocado e manter-se como paradigma duma realidade de interior que como se tentou demonstrar, pode servir de exemplo para outros territórios.

Rui Machado

Fontes consultadas para a elaboração deste artigo:(1) – Internet, página do Município de Bragança em http://www.cm-braganca.pt/ ;
(2) - ODAM, 60 anos depois, Evocação da Exposição de 1951, Ateneu Comercial do Porto, junho de 2011, Porto;
(3) - Internet, página do Município de Bragança em http://www.cm-braganca.pt/ ;
(4) - Ver Campos Opostos: trabalhos e viagens de Viana de Lima ao Brasil, estudo apresentado por Tânia Beisl Ramos e Madalena Cunha Matos (Faculdade de Arquitetura da UTL) na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, Brasil;
(5) - Ver Eduardo Jorge Cabral dos Santos Fernandes, Tese de Doutoramento, A Escolha do Porto: contributos para a actualização de uma ideia de escola, julho de 2010, Escola de Arquitetura da Universidade do Minho;
(6) - Fátima Fernandes, Michele Cannatá, Gonçalo Cabral Campelo, Mapa de Arquitectura de Bragança, Ordem dos Arquitectos / Argumentum, 2004;
(7) - Daniela de Almeida Rebelo, Bragança, Transformações Urbanas de uma cidade, Universidade de Coimbra, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Departamento de Arquitetura, outubro de 2008;
(8) - Internet, Nota histórico-artística por Rute Figueiredo, página da Direção-Geral do Património Cultural, 2001 em

http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/328667#images

Figuras :
1 - Internet, http://innholder.blogspot.pt/
2 - Internet, http://www.repositorio.fjp.mg.gov.br/handle/123456789/327
       3 - Internet, página do Município de Bragança em http://www.cm-braganca.pt/
       4, 5 e 6 - Arquivo Pessoal de Lídio Correia
       7 e 8 - Internet, página da Direção-Geral do Património Cultural,
       http://www.patrimoniocultural.pt/
       9,10,11 e 12 - Rui Machado

domingo, 6 de março de 2016

Adeus Torralta!


Há dias que começam mal. Hoje foi um desses dias. Logo de manhã soube do triste destino do Cine Teatro Torralta. Mal imaginava eu que as sirenes que ouvi pela meia-noite e meia eram o socorro àquela que durante muitos anos foi a sala de estar da Cidade de Bragança. As chamas consumiram o Cine Teatro Torralta. As chamas consumiram grande parte das minhas memórias de infância e juventude. A memória física está hoje feita em cinzas, talvez por isso esta necessidade de escrever que senti mal soube da triste notícia.
Esta é uma crónica muito pessoal embora acredite também que hoje seja um dia triste para todos nós. Em Janeiro do presente ano, num texto que aqui publiquei, escrevi:

“ Mais tarde, em 76, um pouco mais crescido, o menino participava no fim do comício no Cine Teatro Torralta. Em pleno palco, o menino agitava uma enorme bandeira com umas letras enormes que ela aprendera há pouco lá na escola da Estacada: EANES.” – Correio Transmontano, 15/1/2016

Esta é só uma memória. Outras, tantas, muitas mais:

A Festas de Natal ou de Fim de Ano das escolas em que todos participamos;
Os concertos dos Melotroup ou dos Arte & Ofício;
As melodias do Sérgio Godinho ou da Mafalda Veiga;
A memória daqueles que tentaram preservar a tradição académica do 1.º de Dezembro como Fernando Pais, Carlos Genésio ou a minha própria mãe, Celeste da Cruz Machado. Confesso que recordo com saudade as encenações teatrais desse tempo ( a minha mãe chamava-lhe “Carlotadas”…);
O episódio contado pelo Sr. Vasconcelos: Dois amigos saíam do cinema depois duma fita de ação e franca pancadaria. Um deles pergunta a outro:
- Gostaste do filme?
Responde o amigo:
- O argumento não era lá grande coisa mas o desempenho foi do melhor que tenho visto;
O arrepio causado pelos grandes épicos que por ali assisti como Quo Vadis, Ben-Hur ou Spartacus e os cagaços que apanhei ao ver estes filmes e de como me aninhava nas confortáveis cadeiras, cor de mel, e desejava que as metragens não fossem assim tão longas;
Recordar com bonomia os escândalos causados numa sociedade conservadora nas estreias de “ A Última Tentação de Cristo “ de Martin Scorsese ou “ A Paixão de Cristo “ de Mel Gibson. Continuar corado ao recordar o falso moralismo duma sociedade hipócrita quando assistiu ao “ Império dos Sentidos “ do japonês Nagisa Oshima;
Podia ainda lembrar as sessões de sexta feira, mais baratas, quando toda a sociedade jovem de Bragança assistiu a muitos golpes do Bruce Lee e do Chuck Norris. Ou quando, envergonhados e entre risos nervosos, vimos no grande ecrã os seios da Sónia Braga;
Como posso não lembrar os momentos “ Cinema Paraíso”? Quando se apagavam as luzes e aos primeiros frames do genérico do leão a rugir, alguém, sempre dizia: Já vi este filme! Ou quando um de nós, no meio do silêncio do início da sessão perguntava:
- Zé Lima, estás cá?
- “Houla”! Cá em cima, no Balcão;
Os intervalos onde toda a sociedade Brigantina se cumprimentava;
E as escadinhas que se desciam para ir ao WC;
E o Parente que recebia os bilhetes à entrada;
E os cartazes que anunciavam as fitas e que nós, admirávamos ao sair das secundárias;
E os beijos que nos distraíram de tantas cenas;
E a primeira vez que levei o meu filho ao Cinema para ver o “Nemo”…

Tudo desfeito em cinzas na madrugada de hoje.

Termino com um pedido. Hernâni, as palavras que se seguem são para ti. Tu que és um dos nossos. Estou certo que também tu viveste muitas das situações que hoje recordei. E é por isso que te peço que faças deste triste episódio um marco da tua gestão autárquica. Sê tu o pivô duma solução que envolva quem tenha de envolver. Podia falar da Fénix renascida ou do dizer popular “ que há males que vêm por bem” mas não me apetece perder-me em palavras fúteis.
Faz-nos um favor. Devolve-nos o Cine Teatro Torralta!

Cine Teatro Torralta (créditos Nuno Miguel Fernandes)

https://vimeo.com/164494900

sexta-feira, 4 de março de 2016

Amanhã, volto lá!


Desço a rua íngreme amparado nas paredes e nos poucos carros estacionados ao longo do percurso. Descer, ainda consigo, parando aqui e ali, sentando-me a cada passo nos degraus das portas dos velhos prédios consumidos pelo tempo. Para subir a rua, faço outro percurso, mais distante mas mais plano. Perco-me muitas vezes nas ruas da cidade que já não é minha. Tudo me parece estranho. Olho para os rostos desconhecidos com vozes desencontradas com as minhas memórias. Onde estão os meus semelhantes? Ia jurar que naquela casa, ali defronte, vivia o Marcelo, o meu irmão mais velho. No outro dia bati-lhe à porta. Ninguém atendeu. O batente sofrido de tanto fustigar o castanho da porta, adormeceu-me a mão. Alguém gritou:
- Raça do homem, já não mora aí ninguém, todos os dias isto, melhor era que te internassem. Vai embora e não atormentes os vivos.
Indiferente, cego dos ouvidos, surdo dos olhos, nada percebia. As janelas fechadas. Onde estavam todos? A própria mãe que nunca saía de casa…
- Mãe! Mãe! Tenho sede, abre a porta. Nem a porta se abria nem o rosto se assomava à janela com aquele ar sereno que tanto me tranquilizava. E eu com tanta sede. E fome. E frio. E solidão. E os demónios que me atormentam este viver. E as sombras que me seguem para todo o lado, ora atrás, ora à frente, de lado, de todos os lados…
Já nem o Berto aparecia. Ele que estava sempre na rua:
- Não vou para casa, está tudo em pantanas, o meu pai entornou-se outra vez.
O Berto. A vida que tinha sido madrasta na infância, dotou-o de um pé esquerdo com mais destreza que muitas mãos direitas. Fazia maravilhas lá longe, estádios ululantes de gente. Um Natal, no mês de março… espera, não pode ter sido em março, talvez em maio…não sei dizer, o Berto aparecera num carro enorme, todo bem vestido, com uma mulher toda cromada e cintilante. Estava eu a fumar um mata ratos que apanhara nas friestas da calçada e vi-o chegar. Ele parou, saiu do carro e perdeu alguns minutos a olhar em volta. Dentro do carro, a mulher impaciente, ruidosa, lamentava a vinda:
- Eu nem o conhecia…
- Acho que nem eu. Disse o Berto. Era meu pai. Bom ou mau, era meu pai.
A loira reciclada, não desarmava:
- Um pai que te moía de pancada. E o que fez à pobre da tua mãe… Eu nem saio do carro.
Era verdade, consumido pelo vinho de tostão, martelado, o pai do Berto fora sempre um traste. Mãe desgraçada aquela! Morreu de tanta ralação, de tanta pancada. Na funerária, informaram o Berto de que não tinha sido fácil disfarçar as marcas do ódio e da brutalidade do pai:
- O que for preciso. Façam o necessário…
Mas hoje era o pai que ia a enterrar. Dividido, o Berto despedia-se dum passado de pobreza e de ausência de tanta coisa… Antes de entrar na Igreja da Misericórdia, o Berto olhou para mim, reconheceu-me:
- Estás bem? Não tens bom ar. Toma este sobretudo, faz-te mais falta do que a mim.
Olhamo-nos por breves instantes. Em silêncio, dissemos tudo. Lembramos por exemplo quando corríamos as ruas à procura de paus de gelado usados, que depois trocávamos por um, de gelo e groselha, na taberna da Costa. Vinte paus usados por um gelado de gelo. Ou quando íamos para a janela do Queiroz à espera que ele nos mandasse chocolates espanhóis. Às vezes corria mal:
- Quereis mais meus lindos?
- Queremos Sr. Queiroz.
- Comei m…
Mais tarde, vi sair o carro fúnebre. Só o Berto acompanhava o pai à última morada. Mais ninguém quis testemunhar esse adeus.
Perdido. Mais uma vez. Não sei o caminho.
- Boas Américo! (Américo? Mas quem é o Américo?) Vira ali à direita e depois segue em frente que vais lá dar. (Mas para onde me mandam?) Anda, vai lá. Não tens de lá ir todos os dias. Deixa-te estar ao quente em casa.
Porque me falam, não os conheço. Virar à direita… é esta, é a mão com que escrevo. Por aqui. Agora em frente. Em frente é pelo meio das duas mãos, não é?
- Américo, espera, eu levo-te lá. Já falta pouco.
Agarrado pelo braço, Américo, eu, conduzido pelo passo certeiro da irmã Fortuna. A religiosa aparecia sempre nas horas más, levando-o lá, ali mesmo.
- Entra Américo, a tua mulher já perguntou por ti. Que bonita flor lhe trazes! Olha, à saída, não te esqueças de levar a marmita. Traz as que tens lá em casa.
Todos os dias. No quarto dela. Sem palavras. Durante uma hora. Certinha. Às vezes pego-lhe na mão, palpo-lhe o pulso para lhe sentir o sangue correr. Corre. Não tanto como naquele primeiro dia que lhe roubei um beijo e muito menos do que quando nos encontramos, furtivos, entregando-nos um ao outro num lençol feito de epidermes. Mas ela não reagia. De olhar fixo no teto, não reagia. Impávida, serena e aos meus olhos, bela como no dia que a conheci na escola primária. Depois, venho-me embora. Antes de sair do quarto, digo-lhe as únicas palavras de todos os dias:
- Amanhã, volto!
Ao final da tarde, já em casa, o gordo da televisão grita e toda a gente se ri.
Menos eu, o Américo.
A casa cheira a velho.
O Américo, eu, cheiro a velho.
Mas não posso morrer. Só depois dela ou um bocadinho antes dela ou com ela.
Na cozinha, as marmitas da Misericórdia amontoam-se. Muitas delas por abrir. Antes de adormecer no sofá, na estranheza das ideias, uma organiza-se, lucidamente:

- Amanhã, volto lá!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

“ PEDRAS ELOQUENTES DE SILÊNCIO – ADEUS! ” *



No passado fim de semana, comemoraram-se os 552 anos de Bragança Cidade. Resumir nas palavras que cabem nesta crónica o apreço que tenho pela terra de minha mãe, dos meus avós e dos meus filhos não seria tarefa fácil. Faltar-me-iam as palavras e o engenho, já o amor e o entusiasmo, sobrar-me-iam, e estes, por vezes, traem a prosa qualificada. Resolvi então ir à procura. Seguir o instinto e rebuscar nas memórias dos que aguarelaram a minha infância e juventude e me serviram de exemplo.

Os olhos, as mãos e os dedos levaram-me até à “ Evocação Histórica na Domus Municipalis “ proferida em 1964 pelo diretor do Boletim Amigos de Bragança, Dr. Eduardo Carvalho, na sessão inaugural do V Centenário da Cidade de Bragança. Nessa evocação, o ilustre orador, distinto professor do Liceu Nacional de Bragança, faz uma resenha histórica do aparecimento do povoado, dos seus primeiros habitantes, da localização estratégica para a defesa nacional, do apreço que gozava nos corações dos reis afonsinos, das posteriores indefinições de serventia e governo, da projeção que viria a ter séculos mais tarde formando “um bragancismo, um corpo moral que procurou fundir e ligar no mesmo destino a terra de Bragança e a Casa de Bragança, a que o futuro reservaria honras e glórias sem par” até à data de 20 de Fevereiro de 1464, quando se dá a elevação de Bragança a cidade como consequência de requerimento pelo Duque D. Fernando ao Rei D. Afonso V. Na parte final da evocação, o ilustre professor pede ajuda às pedras, elas que testemunharam a efeméride e outros acontecimentos que marcaram estes cinco séculos de cidadania. São estas palavras que orgulhosamente transcrevo. Não encontro melhor homenagem para a Cidade de Bragança, homenageando em simultâneo, um dos seus mais dignos estudiosos:
“ Talvez estas pedras veneráveis, que ora nos servem de abrigo, pudessem dizer-nos do entusiasmo de então. Neste ambiente secular, de tanta austeridade, apetece falar não com os homens mas com as pedras que foram testemunhas dos acontecimentos de antanho. Apetece gritar-lhes, acordá-las do longo sono em que mergulharam para lhes ouvir contar a sua história.
- Pedras que me ouvis, volvei os olhos para a noite dos séculos e segredai-nos que presenciastes ao ouvir as palavras de vosso alcaide, do vosso senado, quando os arautos vos trouxeram palavras de apreço e de justiça do rei que vos fez cidade, fazendo mercê ao seu duque e ao seu povo. Vós, que então apenas ouvíeis as palavras lamentosas do povo sobrecarregado pelo fardo dos tributos a pagar a seus senhores; Vós, que ouvistes os murmúrios do vosso povo contra a prepotência dos vossos governadores, quando desleais como João Afonso Pimentel ou vorazes como D. Duarte, o senhor que antecedeu os vossos duques; Vós, que ouvistes os queixumes do povo contra a usura que o manietava, Vós, pedras benditas, ouvistes também palavras de alegria quando a notícia faustosa vos chegou. Sinto-vos estremecer entregues à fúria dos tempos, à insânia das épocas. Acordais, porque a voz do povo, que em vós encontrava abrigo e alívio, ressoa hoje festivamente como um eco do que então ouvistes! Aqui estamos hoje também como então, para recordar, com o coração a vossos pés, a legenda antiga das vossas tradições medievais.
Pedras veneráveis, cada um dos vossos modilhões poderia talvez contar uma história, uma anedota esclarecedora, cada uma das vossas fenestrações, por onde a luz e o ar vos beijam, podia ter sido testemunha de tantos acontecimentos notáveis de que o vosso povo foi parte enérgica e decisiva.
Largos séculos ficastes ao abandono, depois de bárbaro gesto ter desfeiado a vossa traça primitiva. O desleixo, a incúria, a indiferença, deixaram-vos a descoberto, ao assalto das tempestades, das geadas e dos ventos. Lembro-me ainda de vós como amontoado inestético nas vossas preciosas ruínas.
Alma de lírio vos encontrou e, reconhecendo em vós a nobreza popular do vosso múnus, trouxe-vos de novo à vida, dando-vos as feições da juventude, rodeando-vos das atenções da Ciência que então vos chamou JÓIA ÚNICA com requintes de namorada. Na elegância recobrada das vossas linhas, aí vos ergueis hoje para receberdes festivamente os que em vós reconhecem o valor das vossas tradições municipais. Guardai por séculos sem fim o eco dos vossos anais para que – cem, duzentos, quinhentos anos mais tarde, possais repetir palavras de saudade aos que vierem ver-nos e interrogar sobre este então passado longínquo.
Então podereis dizer, ó pedras sagradas, que na era de 1964 se procurou reviver com dignidade essa outra já passada de 1464, não faltando aqui, pela primeira vez, e para vos honrar, o sangue daqueles que tu honraste, o descendente dos teus antigos Duques, Senhores e Reis, e os descendentes do povo que os fizeram grandes com a sua modéstia, monumento histórico e transcendente que aguardastes por largos séculos.
Adeus, pedras generosas, que as gerações futuras vos amem como nós vos amamos, berço modesto das nossas gentes, das nossas liberdades municipais, das nossas garantias e privilégios de Cidade.
PEDRAS ELOQUENTES DE SILÊNCIO – ADEUS! “

O ADEUS só poderia ser material. As palavras de Eduardo Carvalho e de tantos outros que amaram a nossa cidade ecoam por esses montes fora, testemunhadas pelas eternas pedras que, sobrepostas umas nas outras, constroem um amor sem fim.

Rui Machado


* Ver Eduardo Carvalho, Bragançanismo, Tentativas históricas e literárias, Bragança, Edição A Voz do Nordeste, 1995, pp. 52-57

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A miséria das irmãs sexagenárias e o despesismo eurocrata


“ São três irmãs todas cegas de nascença, Maria, a mais velha, tem 69 anos. Conceição, 65, e Ana, 62. Vivem juntas desde sempre em Covas do Rio, S. Pedro do Sul, onde não têm mais familiares.” Jornal de Notícias, 12/2/2016

Ao ler a notícia no JN, a primeira reação foi de incredulidade por um excesso de zelo, cego, frio e calculista por parte duma instituição que tem na sua génese a proteção social a quem precisa. Pormenorizemos, façamos o enquadramento da notícia: A direção do Centro Social e Paroquial de S. Martinho das Moitas, instituição financiada pela Segurança Social, presta apoio a 36 utentes carenciados. Acontece que o protocolo de financiamento só prevê o apoio a trinta beneficiários. Pelo não cumprimento do estabelecido, o Centro Social foi multado em 3600€. A direção da IPSS defende-se com a necessidade de dar resposta aos utentes necessitados que lhe batem à porta. Na verdade, três dos beneficiários, são três irmãs cegas de nascença, sexagenárias a quem se fornecem refeições diárias e limpeza semanal. Vivem sozinhas desde 2005, ano do falecimento da mãe.

Concordando que os apoios do Estado são regulamentados e devidamente enquadrados, não consigo, melhor, não quero perceber como foi possível penalizar alguém que se limitou ajudar quem precisa de apoio como de pão para a boca, aliás, o apoio era o próprio pão. Mais absurdo se torna isto tudo porque o que aconteceu não acresceu à despesa, com o mesmo dinheiro, alimentavam-se mais seis utentes. Não podiam, só podiam dar resposta a trinta.

Sendo verdade que à guisa de apoios, engordamos alguns que mais não fazem do que movimentar tascas e emperrar tribunais; Que servimos o prato a muitos que podiam e deviam trabalhar para o precaver; Que potenciamos a preguiça nuns tantos, capazes de, pelo menos, procurarem trabalho, mostrando-se disponíveis para produzir algo em troca do apoio que recebem; Sim, o apoio social talvez tenha falhado ao subsidiar quem, precisando, se acomodou ao cheque mensal da Segurança Social. Mas será que ajudar três sexagenárias cegas, sozinhas e sem familiares, sem qualquer autonomia, é desperdício de dinheiros públicos? Não é meus senhores. Não pode ser! Para o raio que os parta, Regulamento e Protocolo! Mas não foi possível verificar a necessidade destes carenciados? Mas não foi possível ir ao terreno e verificar a precisão da manutenção do apoio? Foi mais fácil multar, cumprir o maldito Regulamento. Se bem conheço o funcionamento destas coisas, enquanto não estiver resolvida a questão da coima, as próximas transferências pecuniárias para o Centro Social estarão comprometidas assim como o auxílio a todos os beneficiários.

Este excesso de zelo desmedido dá que pensar. Em sentido oposto e lendo o último livro de Maria Filomena Mónica – A Minha Europa, no seu capítulo A União Europeia, Bruxelas*, percebi a agilidade com que se desbaratam dinheiros públicos. Partilho convosco: 

- “O Directorate-General for Translation, localizado em Bruxelas e no Luxemburgo, emprega 1750 tradutores permanentes. Em 2010, o custo total dos serviços de tradução foi de 130 Milhões de euros”;

-“ Inaugurado em 1969, o edifício principal da Comissão Europeia em Bruxelas, sofreu obras de remodelação por nele se ter detetado amianto. O restauro demorou 13 anos e o seu custo foi sete vezes mais elevado do que o previsto”;

- “O número de funcionários da Comissão Europeia ascende a 32,949 distribuídos por 60 edifícios”.

Em nota de rodapé da obra citada, Filomena Mónica, dá-nos a conhecer os nada modestos honorários dos deputados europeus e eurocratas:

“ A revelação dos salários recebidos por comissários, deputados e funcionários tem de ser arrancada a ferros, sendo o seu cálculo demasiado complicado para que um cidadão entenda quanto ganham. Muitos não recebem uma soma global, mas sim verbas incluídas em diversas rubricas, que se acrescentam aos seus salários. Os números apresentados têm variado, o que, se pensarmos que Bruxelas não os quer divulgar, não admira. Apesar de tudo, aqui vai um cálculo de quanto ganharão por mês um eurodeputado e um eurocrata, incluindo alguns – mas não todos – os subsídios que lhes são atribuídos: 

Um deputado ganha cerca de 17,500€ e um eurocrata no topo da carreira 16,919€. A maior parte deste dinheiro está livre de impostos (apenas o salário propriamente dito paga uma pequena taxa ao fisco).”

Refiram-se mais algumas preocupantes curiosidades:

- “Em 2010, enquanto os países-membros lutavam contra a crise económica, o Parlamento Europeu aprovou uma soma elevadíssima (154 Milhões de euros) para a construção de um Museu, A Casa da História Europeia”;

- “O resultado da maquinaria eurocrata está contido em 150 mil páginas de diretivas, cujos Estados-membros são obrigados a aplicar. Na internet, existe uma base de dados, o Euro-Lex, com a legislação – 1,4 Milhões de documentos, emanada de Bruxelas. A despesa com essa atividade legislativa raramente é mencionada (…). Há alguns anos, o Comissário Verheugen arriscou um número: 600 Biliões de euros por ano, ou seja, uma soma equivalente ao PIB da Holanda”. Em Portugal no ano de 2014, o PIB estimou-se em cerca de 173,5 Biliões.

Para alguns, acabo de fazer um exercício simplista e populista. Mas não é de dinheiros públicos que estamos a falar? Quem contribui para o apoio social das carenciadas de Covas do Rio? Quem suporta parte das mordomias da União Europeia?

Resposta: O cidadão contribuinte.

Lembram-se da última crónica que partilhei convosco? Perdemos a face da humanidade e pior de tudo é que não nos apercebemos. Ou lidamos bem com isso. O que é pior.

Termino roubando as palavras ao cronista da TSF, Fernando Alves: - “ escoou-se a fé na deriva dos dias e no desconcerto do Mundo.”

* A informação referida sobre a União Europeia recolheu-se na obra de Maria Filomena Mónica, A Minha Europa, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2015, pp.295-339.


Rui Machado

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Como o rock progressivo me ajudou a compreender algumas coisas da vida



Para começar, devo confessar que ao ouvir uma música nem sempre me fixo nas palavras. Durante décadas fui (e sou) um melómano de trazer por casa. Sempre retirei imenso prazer na simples audição sem aprofundar a análise à música e letra dos temas que ouvia (e ouço) repetidamente, de preferência na horizontal, com pouca ou nenhuma luz e com os da minha espécie a uma distância considerável. Estranhamente, retirava o prazer necessário ouvindo as melodias, obviamente, mas também jogando com a sonoridade das palavras, mesmo sem as perceber. Naturalmente, a posteriori, analisava as palavras e conjeturava sobre as intenções de quem as escrevera. Estranho hábito este de querer esventrar as palavras dos poetas… De qualquer forma, para mim, as palavras são importantes. Mesmo que não sejam as minhas palavras, sobretudo quando não são as minhas palavras. 

Há um tema, uma música, que ilustra bem o que acabo de dizer: Wish You Were Here de Pink Floyd. Esta é uma das bandas da minha vida. Desde muito novo, influenciado por irmãos e primos mais velhos, no martirizado gira-discos, ouvia Pink Floyd, Procol Harum, Deep Purple, Supertramp e Led Zeppelin. Todos de origem britânica. A segunda metade da década de 60 e grande parte da de 70, deram ao mundo música de grande qualidade. De todos, Pink Floyd era um caso à parte. Em vinil e até no velho leitor de cartuchos do Citroen GS Club do Sr. Machado, ouvia-se Pink Floyd com o seu rock progressivo e psicadélico. Da minha parte, pouco captava das letras filosóficas. Atraíam-me sobretudo os ambientes sonoros criados nos seus longos temas. A produção musical, à época, era o complemento perfeito para os cenários do quotidiano, uma acompanhante permanente para as incidências da vida. Assim aconteceu com Wish You Were Here. Era só mais um sucesso. Talvez as pessoas que o ouviram desde sempre não tenham percebido o seu alcance. O seu refrão, se ouvido de forma isolada e pouco atenta, remete para uma canção romântica já que nele se repete o desejo da presença de alguém ausente. Porém, talvez não seja bem assim. Ou melhor, podemos interpretar as palavras metafóricas da dupla Roger Waters e David Gilmour como uma alienação. Vejamos: A banda britânica vivia o seu auge após o lançamento do álbum The Dark Side of The Moon em 1973. Batiam recordes de vendas, encimavam as tabelas de referência e tocavam em todas as rádios. Tamanha exposição terá transfigurado os elementos da banda, tanto sucesso terá relegado para a prateleira o lado humano dos seus elementos criativos. Era necessário recuperar a identidade dos tempos fundadores. Foi essa a linha orientadora do álbum Wish You Were Here, editado em 1975.

Logo nos primeiros versos do tema que dá nome ao álbum, infere-se o tom crítico relativamente a uma sociedade cega que já não sabia distinguir o bem do mal, condição que fragilizava os homens dominados pelos ditames da sociedade capitalista e opressiva. O homem, lato sensu, desaprendera de distinguir as belezas da natureza privilegiando os progressos do desenvolvimento material. Já não se valorizava o sorriso ocultado por um véu opaco que diminuía horizontes. As palavras continuam, espraiam-se questionando o Homem de como foi possível trocar as dádivas da natureza, da vida, por bens materiais e comerciais. Como foi possível ceder ao conformismo renegando um papel ativo na procura da humanidade perdida? Dentro da sua própria mente, o Homem estava aprisionado numa cela opressora e castrante. Depois, o tal refrão: “ How i wish, how i wish you were here” é o desejo do regresso do lado humano perdido. É a terrível assunção do imobilismo das duas faces humanas: a que se havia perdido e aquela em que nos havíamos tornado. Dois “ninguéns” dentro da sociedade que nos aprisiona, como peixes em aquário, tempo após tempo, fazendo repetidamente as mesmas coisas, sempre da mesma forma. E para quê? O que encontramos ao cabo de tudo? Os mesmos velhos receios de sempre.

Foi esta uma interpretação das palavras, por sinal bem atual. Passados 40 anos poderiam ter sido escritas por estes dias e servir de suporte às reuniões dos poderosos (o Dr. Costa vai à madrinha alemã pedir a bênção) obrigando os cidadãos a perder a face humana que os líderes europeus já há muito perderam.

No final de contas, quando não me influenciavam as palavras, apenas a sua musicalidade, talvez o outro de quem suspirávamos pela sua presença, constituísse bálsamo suficiente para uma vivência despreocupada, que hoje, infelizmente, não podemos ter.

Aqui fica a letra na íntegra, na sua originalidade para que dela possamos fazer as interpretações mais ou menos conformistas, mais ou menos românticas ou então, como eu fazia à época, simplesmente saborear a sua musicalidade e não o seu significado. Como entenderem.

Rui Machado



Wish You Were Here de Pink Floyd

(Roger Waters, David Gilmour)

So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skys from pain.
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

And did they get you to trade
Your heros for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears.
Wish you were here.