sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O velho que dormia no carro




Pouco depois de ter escolhido este lugar para viver comecei a perceber as rotinas dos visitantes do cemitério. Há-os de vários tipos. Em maior número, as viúvas. Parece que nós homens, nos estragamos mais ao longo da vida. Morremos mais cedo. A julgar pelo número de viúvas que visita regularmente o meu cemitério, há mais viúvas que viúvos. Eu fujo à regra. Sou viúvo, parece-me. Não tenho ninguém comigo. Acho que sou viúvo não só de mulheres mas de mais coisas boas da vida. E também não venho visitar ninguém. Vivo aqui. Vivo no cemitério. Melhor, vivo à porta de cemitério da minha cidade. Quando cá cheguei, estacionei o meu velho 240 D de trinta anos e por aqui fui ficando. Vou mudando o carro de lugar para fugir ao sol. Só me ausento do parque para ir ali à associação comer uma sopa. Ao meio dia. Vou a pé. O carro fica a guardar o lugar. Aquele lugar é meu, ninguém mo tira. Os bancários que trabalham ali perto, reclamam muito. Alguém devia por termo a isto. Como é possível em pleno século XXI? Mas depressa vão embora, apressados nos seus fatos italianos tecidos nas garagens clandestinas de Guimarães.

Eu não incomodo ninguém. Estou por ali. Não falo. Já nem me lembro do som da minha voz. Só da minha voz interior. Falo muito comigo. Tenho tanta coisa para falar comigo… Faço-me muitas perguntas. Eu acho que tenho uma vida para trás. Não consigo recordar. Todas as pessoas me parecem estranhas. Desconheço também a minha identidade. Não tenho papeis. Devem estar no porta luvas-luvas mas não quero abri-lo. Não quero saber do meu passado. Tenho medo do que possa descobrir. Uma noite destas, mais longa que o habitual, um ímpeto incontrolável quase que me desgraçava: abri o porta-luvas do velho 240 D. Foi só uma espreitadela! Juro! Fechei novamente. A curiosidade morreu. Ignorância bendita que faz de cada dia um dia novo. Todos os dias, um novo dia. Todos os dias sou uma pessoa diferente. Por exemplo, hoje sou escritor, estou a escrever um livro. Começo todos os dias um livro novo porque todos os dias, os dias e eu somos novos. Ontem ajudei o coveiro a abrir uma cova. Tenho força e não sabia. Ajudo os jardineiros a cortar a relva e eles, em troca, deixam-me tomar banho de mangueira, ali, por trás daquele cedro. Carrego as compras daquela senhora velhinha que vive ali no número 13. Ela dá-me uma maçã. No Natal deu-me uma chouriça e eu comi-a todo consolado. Eu e o Perdido, um patudo que me faz companhia. O Perdido é bom rapaz porque não faz perguntas. Trago-lhe pão seco lá da associação e fica todo contente. Parece gostar de ser meu amigo, o Perdido. Quando anda às cadelas, fico sem o ver um par de dias. Depois lá aparece, magro como aquilo que ele é, sarnento e dentado pela disputa das cadelas com cio. Às vezes, também me lembro de fêmeas. Andam ali umas ao pé da estação que já se meteram comigo, mas não gosto delas. São feias. Gosto duma que vem ao cemitério às Quartas. Chama-se Rosa. Sai sempre muito chorosa. Veste sempre de negro mas eu gosto dela. Roubo sempre uma rosa do jardim e quando a vejo sair, vou a correr e dou-lha. Nas primeiras vezes, teve medo de mim. Agora não. Estende a mão para recolher a flor e sorri. Sempre que sorri, fico quieto a olhar para ela. Ali de pé. Quieto. Eu e o Perdido. Os dois a olhar para ela, a vê-la ir-se embora. Se eu falasse dizia-lhe que se podia encostar no meu peito e chorar. Se lhe apetecesse. Ou então, convidava-a para ir comer uma sopa comigo, lá na associação. Mas o que me apetecia mesmo dizer-lhe, era que não chorasse mais, que não ficasse outra vez triste. E que viesse visitar-me mais vezes.

Gosto de todos os dias menos de um: o dia dos defuntos. Não gosto porque vem muita gente ao cemitério e desarrumam-me a casa toda. E acham que eu sou um pedinte e querem dar-me esmolas. As pessoas, nesse dia, estão muito caridosas. À maior parte, só os vejo nesse dia. 

Eu vou continuar por aqui. Eu e o Perdido. Perdidos os dois. Achados os dois.

setembro de 2016

Rui Machado

Sargaço, Sol e Fogo




Descanso. No ar sente-se o cheiro do sargaço. Os pulmões acomodados ao ar pesado das cidades estranham o cheiro forte. Um homem de face queimada e costas curvadas, junta pequenos montes de algas que o mar oferece à areia da praia. Em pequeno ouvia dizer que o sargaço servia para fazer medicamentos, cosmética e para fertilizar as terras. Dar vida. Mantê-la bela. Curá-la. 

Mergulho nas águas geladas deste mar a Norte. As algas agarram o meu corpo procurando um ponto fixo, qual metáfora de migrante à procura de terra firme. Ao meu lado, duas jovens repudiam a presença da flora marítima saindo da água a correr para o conforto das toalhas. Mantenho-me quieto, recordando os tempos em que falava com este Atlântico que agora, talvez pelos rigores da idade adulta, parece não me conhecer. Eu. Aquele que te visitava uma vez por ano. No tempo quente. Talvez não te lembres. Foi há muitos anos. Não me reconheces. Estou diferente. Estou velho e cansado. Disforme e triste. Não. O meu olhar está diferente? Já não te olho como naquele tempo em que sentado na areia, durante longas horas, tentava adivinhar os caprichos das ondas. Eu ainda gosto de olhar para o mar. Sim. Talvez nem sempre o veja. Tem razão o mar. Ainda há dias alguém se zangava comigo por ter olhado mas não ter visto. Desculpa. São estes meus mundos que se fecham e estranham a vida mundana.

Ainda na água, equacionei a possibilidade do banho libertador. Olhei em redor e percebi que não seria recomendável porque vida humana pululava por perto. Tirar os calções, ainda que na água, não me pareceu recomendável. Depois de mais umas braçadas redentoras, ouvi os ossos rangerem e as articulações estalarem. São longos os invernos. Demasiado longos. Estendido na toalha entrego-me ao Deus Sol. Estou nas suas mãos. Quase que levitando, ouço ao longe o pregão do vendedor de bolas de Berlim, uma família que joga às cartas e o barco a motor, em contraste com o ócio reinante, sai à procura do sustento.

Vou embora. No regresso, tempo ainda para olhar para as fileiras de barracas listadas, qual imagem parada no tempo, imutável. Ainda bem. Despeço-me do mar e peço-lhe desculpa pela indiferença do meu olhar e pela minha ausência de muitos anos. Pediu-me que seguisse. Rumo ao meu horizonte, como o barco a motor que partia à procura do sustento. E que fosse feliz. Assim será.

No ar, sente-se um cheiro a queimado e pequenas faúlhas invadiram a atmosfera. O fogo dos homens, mais uma vez, tudo consome.

agosto de 2016

Rui Machado



Nepente



Gosto do silêncio dos cemitérios. Aprecio a paz fresca das igrejas nestes dias caniculares. Fujo do bulício da cidade que se agita e alimenta de vidas inquietas. Silêncio. Preciso de silêncio. Ouvir-me. Escutar-me. Proteger-me. Anseio pelo marulhar das vagas que chegam e que logo partem. Procuro uma que me leve com ela na sua crista, amparado, aconchegado. Uma que me distancie para longe, muito longe, onde ninguém me possa ver. Talvez lá ficar. Ou não. Quiçá voltar no regresso dos que sempre voltam. Por mais que voe, navegue, caminhe, tenho sempre o regresso por certo. Garantia de sempre voltar ao ninho que me acolhe e protege.
- Voltas sempre?
- Sempre volto.
- Mas com quem falas nas madrugadas quentes?
- Falo com Nepente.
- Quem é Nepente?
- Não sei dizer. Nepente dissipa a dor. Ajuda-me a esquecer a tristeza e o sofrimento.
- Deve ser bom falar com Nepente…
- Nepente chama-me raio de Sol. Sara as minhas feridas e aquieta-me. Apazigua-me. Serena-me.
- E o que mais faz Nepente? Ela fala?
- Quase nunca. Ouve. Quando o faz, escolhe as palavras certas, no tom adequado, num ritmo pausado, na cadência do meu batimento cardíaco, nos intervalos das minhas muitas palavras.
- Eu gostava de beber Nepente…
- Porque não bebes? Nepente está em todo o lado. Procura. Encontrarás.
- Mas se a vires, falas-lhe de mim?
- Nunca a vou ver, não lhe posso falar de ti.
- Onde estará Nepente? Quero ir ter com ela. Falar com ela, ouvir as suas poucas palavras. Sossegar no seu sossego…
- Não é ela nem ele. É Nepente. Eu encontrei. Procura. Encontrarás.
No silêncio do meu quarto, o corpo dorido acorda aos poucos. Adormecera. Nepente tinha feito das suas. Tal como Helena de Troia fez a Telémaco. Poisei o livro na mesinha de cabeceira. Recostei-me. Adormeci de novo. Nessa noite, as sombras não apareceram.

Rui Machado

julho de 2016

domingo, 17 de julho de 2016

Ninguém olha para o guarda-redes

Uma vez, no Liceu, na aula de Literatura Portuguesa, no tampo de uma mesa apareceu a seguinte frase:

Todos me olham quando estou bêbado, ninguém me vê quando estou sóbrio!

Achei a frase interessante, ficaria bem na minha velha capa de couro onde transportava os livros, aconchegados por um elástico largo e devidamente guardados por Camilo Castelo Branco que, de perfil, estava gravado na capa. Por eu ter uma caligrafia desprezível, pedi a um colega com ar de Billy Idol que me escrevesse a frase na capa. O meu amigo Punk, nas aulas de Literatura, sobrevoava as prédicas do Dr. Mário da Conceição fazendo uns desenhos que só ele entendia. Escrevia também umas frases esteticamente interessantes e de conteúdo filosófico que me remetiam para estranhos mundos que eu escolhi não trilhar.

Anos passados, já possuidor de mais peças para montar esta coisa a que chamam vida, fui percebendo que num milhão de peças Lego, todas me parecem iguais, encaixando entre si na perfeição, construindo assim os nossos dias. Mas se uma aparece com defeito, uma só que tenha escapado ao controle de qualidade, toda a obra pode estar em causa. 

Não raras vezes me senti uma peça com defeito. Outras houve em que me senti parede mestra. Numa e noutra condição, a nossa visibilidade entre pares é matéria complicada de abordar. Há por aí muita formiguinha laboriosa que ninguém vê. Já da cigarra cantante todos parecem gostar. De entre os invisíveis, em lugar cimeiro está o guarda-redes.

Na ressaca da epopeia futebolística, fuzilados que fomos com a excessiva cobertura mediática, apetece-me falar do guarda-redes, esse incompreendido e mal amado. Ele que desafia as leis da física e coloca a sua integridade na ponta das botas dos avançados e mesmo assim parece não merecer a consideração de ninguém. O injustiçado que nunca defende um penálti porque aos olhos de todos, o marcador é que falhou. A desfeita vai ao ponto de dizer que por onde ele pisa, nunca mais cresce a relva.

O texto que se segue, El Arquero, de Eduardo Galeano, retrata as angústias do homem que apesar de trazer nas costas o número 1, ninguém reconhece como primeiro. As palavras rudes de Galeano retratam o destino injustiçado do homem das luvas. Injustiçado mas herói cimeiro.


El arquero (por Eduardo Galeano)

También lo llaman portero, guardameta, golero, cancerbero o guardavallas, pero bien podría ser llamado mártir, paganini, penitente o payaso de las bofetadas. Dicen que donde él pisa, nunca más crece el césped. Es un solo. Está condenado a mirar el partido de lejos. Sin moverse de la meta aguarda a solas, entre los tres palos, su fusilamiento. Antes vestía de negro, como el árbitro. Ahora el árbitro ya no está disfrazado de cuervo y el arquero consuela su soledad con fantasías de colores.

Él no hace goles. Está allí para impedir que se hagan. El gol, fiesta del fútbol: el goleador hace alegrías y el guardameta, el aguafiestas, las deshace.

Lleva a la espalda el número uno. Primero en cobrar? Primero en pagar. El portero siempre tiene la culpa. Y si no la tiene, paga lo mismo. Cuando un jugador cualquiera comete un penal, el castigado es él: allí lo dejan, abandonado ante su verdugo, en la inmensidad de la valla vacía. Y cuando el equipo tiene una mala tarde, es él quien paga el pato, bajo una lluvia de pelotazos, expiando los pecados ajenos.

Los demás jugadores pueden equivocarse feo una vez o muchas veces, pero se redimen mediante una finta espectacular, un pase magistral, un disparo certero: él no. La multitud no perdona al arquero. Salió en falso? Hizo el sapo? Se le resbaló la pelota? Fueron de seda los dedos de acero? Con una sola pifia, el guardameta arruina un partido o pierde un campeonato, y entonces el público olvida súbitamente todas sus hazañas y lo condena a la desgracia eterna. Hasta el fin de sus días lo perseguirá la maldición.

in El fútbol a sol y sombra y outros escritos de Eduardo Galeano

sábado, 2 de julho de 2016

A Praça do nosso contentamento



A Praça Camões estava repleta de gente focada no grande ecrã ali montado para ver a bola. Um silêncio de cemitério, preenchia o ambiente, enquanto olhares expectantes tentam distrair o polaco que se preparava para marcar a grande penalidade. Emparedado entre o Cinema Camões e o Liceu, na magia do tempo, fugiu-se-me a lembrança para outras noites…

Debaixo das arcadas, o Cachimbo Xixeiro afiava a faca, pronta a cortar com mestria a peça de vitela que pendurada no gancho, aguardava pela sua vez. A Tia Aurora que ganhava a vida a vender leguminosas, maltratava uma cliente burguesa que se atrevera a desdizer dos seus feijões. O Sr. Zé Espada, estacionava com dificuldade a camioneta Bedford, série “J”, o primeiro modelo a ser produzido, em 1963, na General Motors da Azambuja. O Milhão vendia vasos e outros cacos, cães de louça e flores artificiais. A Rebordonas vendia casqueiro e grelos. O Peixeiro sacudia as moscas. O Chefe Maurício agarrava o cinto das calças e cofiava o bigode, esticando os beiços, numa manifestação de autoridade não fosse ter de correr atrás de algum meliante. Os namorados aproveitavam a distração dos pais e fugiam, à socapa, para o Jardim António José de Almeida e acobertados pela proteção frondosa das tílias, trocavam os beijos possíveis.
O Chico Naireco, guardador do Jardim, tomava conta dos pimpões que a pequenada alimentava, na pequena taça que já não repuxava. Migalhas de pão alimentavam os pardais, nervosos e irrequietos. Nas latrinas, o Elvis fazia mais uma viagem nas fumaças e ácidos, sobras dos meninos ricos da cidade. No Floresta saía mais uma tosta mista das mãos sisudas do Sr. Teixeira. A D. Alice, Santa Alice, aturava os estudantes enfrascados de subarus e charabanadas. Na esplanada fermentavam amores proibidos, fechados em armários que o tempo demorava em abrir. Olhares furtivos, de sinalética codificada, congeminavam transações de outras vidas, daquelas que nunca se encaixam e se auto destroem. Nos buracos dos muros do jardim, rebentavam bombas de Carnaval, compradas às escondidas na Tabacaria do Jesuíno. O Coreto enquadrava as verbenas e parece que ainda se ouvem melodias de outros tempos. Ouve-se também o cantar dos números do Bingo do GDB: o 1, sozinho, o pilinhas; o 88, as maminhas da Amália…

As lembranças desorganizam-se e vejo agora o Polis, pelo meio, o Fervença, limoso, flui sozinho, enfraquecido pelo decorrer do estio. Os peões, à falta de velocípedes, ocupam a ciclovia e refilam às modernices da juventude e dos que teimam em ser elegantes.

De volta ao Mercado, o Cachimbo desfez a peça de vitela. O Peixeiro vendeu os carapaus aos pobres e a pescada chilena ao Dr. Nalguinhas. A Tia Aurora vendeu o melhor feijão manteiga da temporada. O Milhão tratou mal a canalhada que lhe roubou um par de fisgas. O Chefe Maurício adormeceu de tédio.

No grande ecrã, o Quaresma selou o 5-3 final, depois do Patrício defender o quarto remate dos polacos, um tal de Blasczkowski. No empedrado, ouve-se a borracha dos pneus da Bedford do Zé Espada, o motor 220 Diesel de 3614 c. c., queixava-se da vida que levava.

Acabado o jogo, o povo voltava para casa sem pensar no Brexit ou nas hipotéticas sanções da União Europeia. Que Diabo! Estávamos nas meias-finais.

Como dizia o último ébrio que saía do Floresta: Que se f… o mundo! 

RM

domingo, 19 de junho de 2016

A fada lavadeira da Cidadela

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada*


Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando…

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira…

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo…

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse…

Antes isso que ser o que atravessa vida
Olhando para trás de si e tendo pena…

* Alberto Caeiro

A fada lavadeira da Cidadela




A história que eu vos vou contar, aconteceu na década de 50 na linda Cidadela de casario pobre mas honrado que guardava, com honra e brio, o Castelo de Bragança. O povoado partilhava a Cidadela com o Quartel Militar, formalmente designado por Batalhão de Caçadores 3, o BC3. Para a criançada que corria e brincava pelas ruas e calejas da Vila, era o quartel. Militares e populares partilhavam o povoado sendo que a vida na vila era pautada pela atividade militar, pelas profissões antigas, pelo cultivo das pequenas hortas, pelo amanho das vinhas que os mais abastados tinham no Cabeço mas sobretudo pela existência dura mas muito alegre das lavadeiras. As lavadeiras que cuidavam da roupa dos militares e das poucas famílias ricas da cidade, eram o sustento de muitos dos agregados que habitavam as velhas casas, paredes meias com a Domus Municipalis, a Torre de Menagem, a Torre da Princesa e a Igreja de St.ª Maria. E depois havia a criançada, guardiões das muralhas, exploradores imaginários e guerreiros da fantasia. Muitas batalhas se travaram contra os Castelhanos que nos queriam roubar o Castelo ou contra outros, mais domésticos, como os de Além do Rio que quando ousavam subir a colina do Castelo eram recebidos com a animosidade adequada para os correr dali para fora. Pequenos homenzinhos e mulherzinhas que muitas vezes, por força da vida, eram obrigados a crescerem à pressa mas sem nunca perderem o olhar inocente e de que tudo se é capaz. Quais testemunhas do passar do tempo que corria devagar, conhecíamos todos os lugares e toda a gente. Quando algum sabia duma novidade, depressa se espalhava pelas pedras das muralhas.
- Não digas a ninguém, olha que é segredo! Ouviste Quinzinho? – E eu não contava. Não era isso que me interessava. Ouvia e calava. O meu mundo era outro. Eu gostava de juntar duas ou três pedrinhas, jogá-las ao chão e pensar em batalhas imaginárias com muitos militares a cavalo, muito bem ordenados, digladiando-se entre si. Absorto na imaginação de criança, só o murmúrio das vozes e o barulho das enxadas que cavavam uma vinha no Cabeço me desviavam a atenção. Ou o tlim-tlim-tlim do martelo do ferreiro de Além do Rio, a malhar o ferro na bigorna. Ou então o imperdível rufar dos tambores e o barulho das botas dos soldados que em marcha se dirigiam para o quartel.
- Quero ser militar! – dizia para a minha mãe.
– E porque não? Que bem te vai ficar a farda! Vais chegar a General, vais ver.
As palavras da minha mãe faziam-me crescer mais uns centímetros e saía de casa a galope no meu cavalo de pau, com os cabelos louros ao vento, qual guerreiro Visigodo que vai resgatar a Princesa da Arménia, cativa na Torre da Princesa pelo malvado do Senhor de Bragança, Mendo Adão. Lenda que tantas vezes ouvi contar ao Timóteo, um pobre indigente que vagueava pelas ruas da Cidadela e dormia a sesta à sombra das boloteiras, junto às oficinas do Quartel. O Timóteo, ainda que com fama de tonto, era a voz do povo, o que muitos calavam, ele cantava, versejando em cantilenas intermináveis. Quando não estava a dormir pelos cantos, o Timóteo gostava de acompanhar as lavadeiras. Quando as via juntar-se com as trouxas à cabeça, preparando-se para rumarem ao Sabor, o Timóteo, num andar destrambelhado, a segurar a indumentária larga e rota, abria caminho colina abaixo até à presa da ponte velha do Sabor.
- Timóteo, canta-nos uma das tuas, sempre se nos aliviam as costas que hoje o rol não vai leve. – pedia a Guida lavadeira. E o Timóteo acedia, não para agradar à Guida, mas à sua linda filha Rosalina, por quem todos suspiravam. E assim, do alto do Altar, pedra saliente que os mais ousados usavam para mergulhar nas águas do Sabor, Timóteo cantava:

Bem cantava a lavadeira
ao som da sua barrela;
a roupa que ela lavava
era do Rei de Castela
ela lavava no Douro,
estendia naquela serra,
o sabão que le deitava
era cravo e canela;
o cesto onde coava
era de verga amarela;
a caldeira era d`ouro,
a i-asa de prata era.

A cantilena do Timóteo era acompanhada pelo bater da roupa nas lousas inclinadas sobre o rio, pelo esfregar a punhos fechados e pelo torcer a duas mãos. Tudo bem lavado e cheiroso, com ou sem barrela, dependia da vontade e do bolso da freguesia. Nas margens do rio, ao sol, as roupas à cora pintavam de branco a paisagem, sobressaindo as camisas dos militares e as rendas finas das senhoras da cidade. Cheirava a sabão feito em casa, processo cheio de segredos para a minha cabeça de menino. Como era possível das borras do azeite e mais a soda cáustica fazer sabão para lavar a roupa? Mistérios da Química que o Prof. Dionísio me haveria de explicar lá na Escola da Estacada.
De regresso à Cidadela, as formiguinhas lavadeiras, vergavam com o peso das trouxas de roupa molhada. Chegadas à Vila, ainda com os braços e as mãos dormentes de tanto esfregar, estendiam a roupa entre as muralhas como que a avisar os Castelhanos que ali era terra de paz e para guerra bastava a vida. 
Rosalina era a mais nova das duas filhas da Margarida lavadeira. Com 16 anos, também ela já ajudava a mãe, sobretudo nas barrelas mais exigentes, acendendo o lume de manhã cedo, acarretando os cântaros de água a ferver, enchendo os latos com a água que era preciso ir buscar à cisterna da Domus.
Foi num desses percursos até à Domus que Rosalina o viu pela primeira vez. Não estava autorizada a olhar para os militares, muito menos a responder aos piropos mais brejeiros dos soldados que, longe de casa e dos afetos, não continham vontades e não raras vezes se metiam em alhadas que a regra militar não contempla. Com o Tenente Malhadas, o Duarte, como Maria, a irmã de Rosalina, gostava de chamar, era diferente. O Duarte era educado, sempre impecavelmente fardado, escanhoado e com um sorriso que trazia as lavadeiras suspirantes.
- Bom dia menina Rosalina! Está um lindo dia! O Sol quase brilha tanto como esses seus olhos verdes…
Rosalina baixava a cabeça e não respondia. Só Deus sabe o esforço que fazia para se manter silenciosa. O Duarte, tão bonito, educado e Tenente! Intrigada, questionava-se como saberia ele o seu nome. Coisa de soldados que tudo sabiam, que tudo perguntavam.
Absorta nos seus pensamentos, mergulhava os latos na água da cisterna. Depois de cheios, tinha dificuldade em erguê-los.
- Isso não é tarefa para mãos tão delicadas. Quer que a ajude menina Rosalina? – ele de novo, o Duarte.
- Não sei se deva. Os meus pais…
O Tenente não deixou terminar a conversa, com a agilidade dos seus 26 anos, duma só vez puxou os dois latos já cheios de água que Rosalina, de mãos trémulas, a custo segurava. Ao sentir por perto o aroma quente e cuidado do Duarte, Rosalina esmoreceu, sentiu as pernas fraquejar e recostou-se para trás. Refeita e assustada, com uma força repentina, saiu da Domus a correr, puxando pelos latos que agora, estranhamente, tinham sido tomados duma leveza súbita.
Do alto da muralha, Timóteo cantava:

Deixa-te andar Rosalina, 
deixa-te andar a brincar
que hoje se corta a lenha,
amanhã vais a queimar…

Apesar das pedras das muralhas tudo testemunharem, a vida na Cidadela corria no seu remanso. O povoado acordava com o toque de alvorada do Miguelzinho, o corneteiro Mor do BC3. O toque destinava-se à rotina militar mas também marcava o ritmo dos que no casario habitavam, como era o caso do Sargento Morais que obrigava os filhos a levantarem-se ao toque do Miguelzinho. Os filhos, contrariados, levantavam-se mas vingavam-se no corneteiro. Ao abrigo das muralhas, quando este, de corneta debaixo do braço, regressava a casa, a garotada mais atrevida gritava bem alto:
- Miguelzinho, pardal sem rabo!
E era ver o Cabo Miguel, intrigado a olhar em redor para as muralhas sem perceber donde vinha o impropério.
Verdade, de tão miudinho que era, o Miguelzinho parecia incompleto, Adequava-se a nomeada.
A rotina remansosa da Cidadela só era interrompida nos dias de Juramento de Bandeira. Os populares eram autorizados a presenciar a cerimónia e a assistir à mestria do Prof. Guilhermino na direção da Banda Militar.
Mas outros dias marcaram as nossas vidas. Como aquele em que os soldados regressaram da Índia, corria o ano de 1958. O soldado Benigno, cujo nome de batismo batia certo com o seu carácter, ao passar por mim, gritou emocionado:
- Olha o Quim Vila! Que saudades dos meus rapazes da Vila!
Foi nesse dia que percebi que também se pode chorar de alegria.
No resto, tudo sucedia na normalidade costumeira. O cabo correeiro, nas oficinas do quartel, reparava os atafais das mulas e dos cavalos. A Terrona taberneira guardava a chave da Domus Municipalis, quando víamos alguns turistas canabeques a passar por baixo do Arco de St.º António, corríamos rua acima para pedir a chave do monumento, a nossa jóia da Vila, que mostrávamos com orgulho. Claro que o fazíamos na esperança de nos darem uma moedita para jogar na rifa que nunca saía ou para beber uma laranjada. 
Também me lembro de ver fome envergonhada pois os tempos não eram de fartura. A criançada, antes de ir para a escola descia a Rua do Jardim até à Igreja de S. Bento onde as catequistas Luzia, Dina e Teresinha, todas meninas e moças, preparavam o pequeno-almoço com os víveres que os Americanos mandavam pela Cáritas. Tudo regido e orientado pelo coração sem fim do Padre Miguel ajudado pelo Sr. Maurício, sacristão de serviço. Com o estômago mais acomodado, os rapazes partiam para a Escola da Estacada e as raparigas para a de S. Sebastião.
Os dias corriam iguais mas felizes. Ao toque de recolher, vários corneteiros em formatura em frente à Porta de Armas do Quartel, anunciavam o fim do dia. 
Houve um dia com um final de tarde diferente. 
Eu tinha ido à Fonte do Alcaide buscar um cântaro de água. Pelo caminho cruzei-me com o Laminuta que vinha do Rebolo. Estava ele a gabar-se dos mergulhos que dera da Carrasqueira e dos ralhetes das lavadeiras que queriam a canalha longe porque turvavam a água, quando ouvimos uns suspiros vindos do Carrascal.
- O que é isto? Ouviste Quim? – perguntou o Laminuta como que pressentindo marosca – Ia jurar que ouvi vozes e gemidos.
- Deixa lá isso, vamos embora. – acrescentei eu como que adivinhando desgraça.
- Deixo nada, anda cá.
Contrariado segui os passos de gato do Laminuta que depressa farejou a origem dos estranhos sons. Protegidos pelos carrascos, Rosalina, a morena lavadeira por quem todos suspiravam, perdia-se nos beijos do Tenente Malhadas, já liberto da jaqueta e com a camisa já desabotoada.
-Pára, não podemos! – defendia-se Rosalina entregue aos braços fortes de Duarte.
A cena inesperada provocou no Laminuta um risinho nervoso. A mim causou-me uma desilusão tão grande que sem pensar, soltei um berro que fez levantar a passarada e colocou alerta o casal improvável. Desatamos os dois a correr galgando a colina. Foi tão grande a pressa que me esqueci do cântaro da água lá na Fonte do Alcaide. Ao chegar à Vila, ainda disse ao Laminuta:
- Não digas nada, não contes nada a ninguém, ouviste?
Nem me respondeu, qual cabrito-montês, desapareceu pelas ruelas soltando gritinhos insanos. Naquela mesma noite na taberna da Tia Joana, adivinhava-se o tema da conversa. As línguas soltas, como não têm ossos, trataram de alastrar o sucedido. Rosalina caiu nas bocas do mundo, um beijo incontido, roubado, transformara-se na maior das devassidões.
No Quartel, nos aposentos dos Oficiais, Duarte, o Tenente Malhadas, deitara-se sobre a cama feita, não se desfardara nem descalçara as botas, logo ele que primava pelo esmero e que cuidava da farda com todo o brio. Estava preocupado, Rosalina, agora com 17 anos, era menor. Um ímpeto incontido, impensado colocava em risco a sua carreira militar, logo ele, oficial de carreira que aspirava a altos cargos, ele que até tinha amigos no Ministério. No dia seguinte, no gabinete do coronel, foi-lhe dito que a sua transferência tinha sido autorizada. Sem mais palavras, foi informado que partiria nessa mesma manhã. Não tinha pedido nenhuma transferência, era feliz e realizado em Bragança mas a disciplina militar dava-lhe a frieza necessária para entender a gravidade da situação, sentia-se até agradecido por não sofrer consequências piores.
E Rosalina? Rosalina sentiu a aspereza das mãos da mãe Guida e por três dias e três noites chorou sem parar, não de dor física, mas da ausência de quem amava.
Timóteo, o cancioneiro do povo, do Alto da Torre de Menagem, dizia:

Minha mãe mandou-me à fonte,
à fonte do salgueirinho;
mandou-me lavar a jarra
com a flor do rosmaninho.
Eu lavei-a com areia,
Quebrou-se um pedacinho.
- Anda cá, minha perra traidora,
Onde tinhas o sentido?
Não o tinhas tu na roca,
nem tão-pouco no sarilho;
tinhas é naquele mancebo
que andava de amor contigo.

Ao ouvir os versos do trovador, Maria, a irmã denunciante de Rosalina, sorria. No fundo estava satisfeita com as desventuras da irmã. Como podia o Duarte ter-se enfeitiçado pela irmã, de tez morena e ar de cigana? Como podia a irmã competir com a sua pele alva e os cabelos de ouro?
Timóteo, atento e justo, tinha resposta para Maria:

Eu levantei-me a passear
pela tarde, às duas horas;
vira estar numa janela
duas donzelas formosas:
Uma era muito branca,
da sua cor melindrosa,
outra era mais morena,
morena engraciosa.
Namorei-me da morena
por uma ação generosa;
A branca desque o soube,
logo se mostrou queixosa.
- Cale-se lá, senhora branca,
não seja tão invejosa;
Brevemente l`eu direi
o moreno em quanto se importa:
De preto são nas abelhas
a seu dono proveitosas;
De preto são nos cavalos
e as mulinhas corredoras;
De preto são nos ornatos
com que as igrejas se adornam;
De preto vestia o Rei
e o padre santo em Roma;
Preto era o manto
da Virgem Nossa Senhora.

Passaram muitos anos. O BC3 foi demolido e os militares foram embora. As lavadeiras carpiram a saudade de outros tempos. Já não se ouviam os martelos dos ferreiros de Além do Rio. Deixou de ecoar o som forte e decidido das botas dos soldados. As cornetas emudeceram-se e já não despertavam o casario nem mandavam recolher os indigentes mais descuidados.
Apenas Timóteo continuava a sua função. Nas noites quentes de Agosto, os netos dos que há muito tinham partido, pediam que lhes contasse, mais uma vez, a Lenda das Bruxas Lavadeiras. E ele, sentado no banco a meio do largo onde outrora se formava a parada, contava:
Nos tempos mais remotos, dizia-se que as bruxas lavavam a roupa de noite nos ribeiros. Uma noite, um homem que tinha um moinho, ficou de levar uns sacos de farinha a um cliente da aldeia onde o ribeiro passava. Ao aproximar-se com a mula depois de uma longa caminhada, ouviu bater roupa nas lousas do ribeiro. Não foi ver, pois estava sozinho e amedrontado. Quando entrou na aldeia, o povo perguntou-lhe:
- Viste as bruxas a lavar no ribeiro?
O homem respondeu:
- Eu ver não vi. Mas ouvi bater roupa nas lousas.
As pessoas da aldeia andavam sempre a perguntar aos que vinham de fora se tinham visto ou ouvido as bruxas a lavar, pois era a única forma de os apanhar e descobrir quem eram.
As crianças, curiosas, perguntaram ao Timóteo que bruxas eram essas. E ele, com um sorriso desdentado e encardido, mas sincero, dizia:
- Não eram bruxas, era uma fada. Era a Rosalina, a fada lavadeira da Cidadela.

Rui Machado


domingo, 5 de junho de 2016

Pelas mãos de Adorinda, a cabeleireira



Pela estrada municipal 542, de Miranda do Douro até Cicouro, Adorinda conduz decidida a sua vida. Paradoxalmente, conduz tecnologia alemã, conduz a sua carrinha Mercedes. A viagem não é longa, não durará mais de meia hora. O caminho leva-a até às mulheres da aldeia, lá no Largo da Junta. Pouco expansivas, aguardam serenamente entre dois afazeres. Eles, desconfiados, rondam por perto, atraídos pelo movimento e quem sabe, se disponham a aparar a barba ou o bigode. Um deles, o Ramiro, orgulhoso Mirandês, vaidoso no seu belo traje, exibe o seu bigode janota, um bigode connaisseur, enrolado nas pontas, fixado com uma cera própria que manda vir lá do estrangeiro. Apareceu a tocar gaita, aquela que nos faz chorar de alegria como disse a Né Ladeiras. O Ramiro disse ao repórter da RTP: “ ver estas coisas que nós estamos mal habituados, vir a televisão na nossa terra, ficamos um pouco envergonhados e depois não nos saiem bem as coisas. Arranjando o bigode, depois já nos alegramos um pouco e ficamos melhor”. Que bem se explicou o Ramiro, se estava envergonhado, ninguém deu por ela. Era mesmo aquilo, a Adorinda punha a gente melhor. Se o homem Mirandês se sentiu vaidoso, que dizer das mulheres que interromperam a dura jornada de trabalho do campo para se porem ainda mais bonitas.

A Adorinda é cabeleireira. Um dia, ela e o seu marido, carteiro de profissão, resolveram deitar as mãos à massa, hoje em dia, dir-se-ia que resolveram ser empreendedores. Hipotecaram-se comprando uma carrinha preparada para ser salão de cabeleireira. Tomada a decisão, fez-se ao caminho a Adorinda levando com ela tesouras e secadores e outros engenhos que esticam ou enrolam os cabelos, conforme a vontade da freguesa. Percorre Terras de Miranda, levando pelas aldeias a atenção e o carinho que toda a mulher merece. Nas suas mãos tecem-se os penteados mais ou menos modernos e disfarçam-se aquelas brancas teimosas com uma paleta de tintas, de esperança e de afetos. Enquanto as mãos hábeis trabalham, há sempre tempo para dois dedos de conversa porque às vezes faz melhor uma palavra amiga do que o corte de cabelo. O arranjo do cabelo pouco dura mas a palavra amiga dura muito, dura o suficiente para criar uma vontade que o mês passe depressa para que a Adorinda volte de novo.

“ Tiraram tudo das aldeias “ diz o marido carteiro da Adorinda cabeleireira. Tiraram a escola, a junta, o transporte e até o sinal da televisão. Só não levaram o orgulho transmontano que continua intacto nos poucos que ficaram. E ficou também aquele gostinho especial de estar bonita. Onde houver uma mulher, haverá sempre um espelho e para além do espelho, haverá um olhar do “meu homem” ou doutro alguém que queira bem à bela mulher transmontana. Bela e decidida, como aquela que apareceu montada no Bill, o seu garboso cavalo e do alto da montada, firme e corajosa parece querer desafiar os que ousem questionar a sua beleza refinada que o passar dos anos só apurou. 

Há também testemunhos na língua de Cervantes pois há quem atravesse a fronteira para ir atrás dos milagres estéticos da Adorinda: vêm peinar, cortar y arreglar el cabello.

Beleza naquelas outras, de outra aldeia, a Especiosa. Mulheres sofridas, com os vínculos da idade marcados na face. Apesar de tudo, cantam louvores à Especiosa que só pode ser boa terra, especial certamente e porventura maravilhosa:

“ Se fordes a Trás-os-Montes, ai ai

Não falteis à Especiosa, não não

É terra hospitaleira

Perdeu-se a luz da nação

Quem me dera quem me dera 

ser humilde lavrador…”

Talvez se tenha perdido um pouco da Luz, talvez, mas Adorinda, decidida, empreendedora leva na mão a candeia que realça o caminho. Mantém acesa essa vaidade que não fará mal a ninguém mas que será um tónico para enfrentar os dias que se avizinham difíceis. Mulheres guerreiras do campo, sozinhas, trilhando vidas delicadas, longe dos filhos que há muito partiram e distantes dos médicos que lhes explicam e tratam as maleitas. Esquecidas, alimentam o argumento estapafúrdio de que sendo poucas, são um mero número cuja grandeza não se evidencia nas prioridades dos que decidem.

No silêncio do Planalto Mirandês, Adorinda, a cabeleireira itinerante é um grito de resiliência que nos alimenta a esperança de que este Reino, além de Maravilhoso, é possível.


Rui Machado