domingo, 17 de julho de 2016

Ninguém olha para o guarda-redes

Uma vez, no Liceu, na aula de Literatura Portuguesa, no tampo de uma mesa apareceu a seguinte frase:

Todos me olham quando estou bêbado, ninguém me vê quando estou sóbrio!

Achei a frase interessante, ficaria bem na minha velha capa de couro onde transportava os livros, aconchegados por um elástico largo e devidamente guardados por Camilo Castelo Branco que, de perfil, estava gravado na capa. Por eu ter uma caligrafia desprezível, pedi a um colega com ar de Billy Idol que me escrevesse a frase na capa. O meu amigo Punk, nas aulas de Literatura, sobrevoava as prédicas do Dr. Mário da Conceição fazendo uns desenhos que só ele entendia. Escrevia também umas frases esteticamente interessantes e de conteúdo filosófico que me remetiam para estranhos mundos que eu escolhi não trilhar.

Anos passados, já possuidor de mais peças para montar esta coisa a que chamam vida, fui percebendo que num milhão de peças Lego, todas me parecem iguais, encaixando entre si na perfeição, construindo assim os nossos dias. Mas se uma aparece com defeito, uma só que tenha escapado ao controle de qualidade, toda a obra pode estar em causa. 

Não raras vezes me senti uma peça com defeito. Outras houve em que me senti parede mestra. Numa e noutra condição, a nossa visibilidade entre pares é matéria complicada de abordar. Há por aí muita formiguinha laboriosa que ninguém vê. Já da cigarra cantante todos parecem gostar. De entre os invisíveis, em lugar cimeiro está o guarda-redes.

Na ressaca da epopeia futebolística, fuzilados que fomos com a excessiva cobertura mediática, apetece-me falar do guarda-redes, esse incompreendido e mal amado. Ele que desafia as leis da física e coloca a sua integridade na ponta das botas dos avançados e mesmo assim parece não merecer a consideração de ninguém. O injustiçado que nunca defende um penálti porque aos olhos de todos, o marcador é que falhou. A desfeita vai ao ponto de dizer que por onde ele pisa, nunca mais cresce a relva.

O texto que se segue, El Arquero, de Eduardo Galeano, retrata as angústias do homem que apesar de trazer nas costas o número 1, ninguém reconhece como primeiro. As palavras rudes de Galeano retratam o destino injustiçado do homem das luvas. Injustiçado mas herói cimeiro.


El arquero (por Eduardo Galeano)

También lo llaman portero, guardameta, golero, cancerbero o guardavallas, pero bien podría ser llamado mártir, paganini, penitente o payaso de las bofetadas. Dicen que donde él pisa, nunca más crece el césped. Es un solo. Está condenado a mirar el partido de lejos. Sin moverse de la meta aguarda a solas, entre los tres palos, su fusilamiento. Antes vestía de negro, como el árbitro. Ahora el árbitro ya no está disfrazado de cuervo y el arquero consuela su soledad con fantasías de colores.

Él no hace goles. Está allí para impedir que se hagan. El gol, fiesta del fútbol: el goleador hace alegrías y el guardameta, el aguafiestas, las deshace.

Lleva a la espalda el número uno. Primero en cobrar? Primero en pagar. El portero siempre tiene la culpa. Y si no la tiene, paga lo mismo. Cuando un jugador cualquiera comete un penal, el castigado es él: allí lo dejan, abandonado ante su verdugo, en la inmensidad de la valla vacía. Y cuando el equipo tiene una mala tarde, es él quien paga el pato, bajo una lluvia de pelotazos, expiando los pecados ajenos.

Los demás jugadores pueden equivocarse feo una vez o muchas veces, pero se redimen mediante una finta espectacular, un pase magistral, un disparo certero: él no. La multitud no perdona al arquero. Salió en falso? Hizo el sapo? Se le resbaló la pelota? Fueron de seda los dedos de acero? Con una sola pifia, el guardameta arruina un partido o pierde un campeonato, y entonces el público olvida súbitamente todas sus hazañas y lo condena a la desgracia eterna. Hasta el fin de sus días lo perseguirá la maldición.

in El fútbol a sol y sombra y outros escritos de Eduardo Galeano

sábado, 2 de julho de 2016

A Praça do nosso contentamento



A Praça Camões estava repleta de gente focada no grande ecrã ali montado para ver a bola. Um silêncio de cemitério, preenchia o ambiente, enquanto olhares expectantes tentam distrair o polaco que se preparava para marcar a grande penalidade. Emparedado entre o Cinema Camões e o Liceu, na magia do tempo, fugiu-se-me a lembrança para outras noites…

Debaixo das arcadas, o Cachimbo Xixeiro afiava a faca, pronta a cortar com mestria a peça de vitela que pendurada no gancho, aguardava pela sua vez. A Tia Aurora que ganhava a vida a vender leguminosas, maltratava uma cliente burguesa que se atrevera a desdizer dos seus feijões. O Sr. Zé Espada, estacionava com dificuldade a camioneta Bedford, série “J”, o primeiro modelo a ser produzido, em 1963, na General Motors da Azambuja. O Milhão vendia vasos e outros cacos, cães de louça e flores artificiais. A Rebordonas vendia casqueiro e grelos. O Peixeiro sacudia as moscas. O Chefe Maurício agarrava o cinto das calças e cofiava o bigode, esticando os beiços, numa manifestação de autoridade não fosse ter de correr atrás de algum meliante. Os namorados aproveitavam a distração dos pais e fugiam, à socapa, para o Jardim António José de Almeida e acobertados pela proteção frondosa das tílias, trocavam os beijos possíveis.
O Chico Naireco, guardador do Jardim, tomava conta dos pimpões que a pequenada alimentava, na pequena taça que já não repuxava. Migalhas de pão alimentavam os pardais, nervosos e irrequietos. Nas latrinas, o Elvis fazia mais uma viagem nas fumaças e ácidos, sobras dos meninos ricos da cidade. No Floresta saía mais uma tosta mista das mãos sisudas do Sr. Teixeira. A D. Alice, Santa Alice, aturava os estudantes enfrascados de subarus e charabanadas. Na esplanada fermentavam amores proibidos, fechados em armários que o tempo demorava em abrir. Olhares furtivos, de sinalética codificada, congeminavam transações de outras vidas, daquelas que nunca se encaixam e se auto destroem. Nos buracos dos muros do jardim, rebentavam bombas de Carnaval, compradas às escondidas na Tabacaria do Jesuíno. O Coreto enquadrava as verbenas e parece que ainda se ouvem melodias de outros tempos. Ouve-se também o cantar dos números do Bingo do GDB: o 1, sozinho, o pilinhas; o 88, as maminhas da Amália…

As lembranças desorganizam-se e vejo agora o Polis, pelo meio, o Fervença, limoso, flui sozinho, enfraquecido pelo decorrer do estio. Os peões, à falta de velocípedes, ocupam a ciclovia e refilam às modernices da juventude e dos que teimam em ser elegantes.

De volta ao Mercado, o Cachimbo desfez a peça de vitela. O Peixeiro vendeu os carapaus aos pobres e a pescada chilena ao Dr. Nalguinhas. A Tia Aurora vendeu o melhor feijão manteiga da temporada. O Milhão tratou mal a canalhada que lhe roubou um par de fisgas. O Chefe Maurício adormeceu de tédio.

No grande ecrã, o Quaresma selou o 5-3 final, depois do Patrício defender o quarto remate dos polacos, um tal de Blasczkowski. No empedrado, ouve-se a borracha dos pneus da Bedford do Zé Espada, o motor 220 Diesel de 3614 c. c., queixava-se da vida que levava.

Acabado o jogo, o povo voltava para casa sem pensar no Brexit ou nas hipotéticas sanções da União Europeia. Que Diabo! Estávamos nas meias-finais.

Como dizia o último ébrio que saía do Floresta: Que se f… o mundo! 

RM

domingo, 19 de junho de 2016

A fada lavadeira da Cidadela

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada*


Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando…

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira…

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo…

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse…

Antes isso que ser o que atravessa vida
Olhando para trás de si e tendo pena…

* Alberto Caeiro

A fada lavadeira da Cidadela




A história que eu vos vou contar, aconteceu na década de 50 na linda Cidadela de casario pobre mas honrado que guardava, com honra e brio, o Castelo de Bragança. O povoado partilhava a Cidadela com o Quartel Militar, formalmente designado por Batalhão de Caçadores 3, o BC3. Para a criançada que corria e brincava pelas ruas e calejas da Vila, era o quartel. Militares e populares partilhavam o povoado sendo que a vida na vila era pautada pela atividade militar, pelas profissões antigas, pelo cultivo das pequenas hortas, pelo amanho das vinhas que os mais abastados tinham no Cabeço mas sobretudo pela existência dura mas muito alegre das lavadeiras. As lavadeiras que cuidavam da roupa dos militares e das poucas famílias ricas da cidade, eram o sustento de muitos dos agregados que habitavam as velhas casas, paredes meias com a Domus Municipalis, a Torre de Menagem, a Torre da Princesa e a Igreja de St.ª Maria. E depois havia a criançada, guardiões das muralhas, exploradores imaginários e guerreiros da fantasia. Muitas batalhas se travaram contra os Castelhanos que nos queriam roubar o Castelo ou contra outros, mais domésticos, como os de Além do Rio que quando ousavam subir a colina do Castelo eram recebidos com a animosidade adequada para os correr dali para fora. Pequenos homenzinhos e mulherzinhas que muitas vezes, por força da vida, eram obrigados a crescerem à pressa mas sem nunca perderem o olhar inocente e de que tudo se é capaz. Quais testemunhas do passar do tempo que corria devagar, conhecíamos todos os lugares e toda a gente. Quando algum sabia duma novidade, depressa se espalhava pelas pedras das muralhas.
- Não digas a ninguém, olha que é segredo! Ouviste Quinzinho? – E eu não contava. Não era isso que me interessava. Ouvia e calava. O meu mundo era outro. Eu gostava de juntar duas ou três pedrinhas, jogá-las ao chão e pensar em batalhas imaginárias com muitos militares a cavalo, muito bem ordenados, digladiando-se entre si. Absorto na imaginação de criança, só o murmúrio das vozes e o barulho das enxadas que cavavam uma vinha no Cabeço me desviavam a atenção. Ou o tlim-tlim-tlim do martelo do ferreiro de Além do Rio, a malhar o ferro na bigorna. Ou então o imperdível rufar dos tambores e o barulho das botas dos soldados que em marcha se dirigiam para o quartel.
- Quero ser militar! – dizia para a minha mãe.
– E porque não? Que bem te vai ficar a farda! Vais chegar a General, vais ver.
As palavras da minha mãe faziam-me crescer mais uns centímetros e saía de casa a galope no meu cavalo de pau, com os cabelos louros ao vento, qual guerreiro Visigodo que vai resgatar a Princesa da Arménia, cativa na Torre da Princesa pelo malvado do Senhor de Bragança, Mendo Adão. Lenda que tantas vezes ouvi contar ao Timóteo, um pobre indigente que vagueava pelas ruas da Cidadela e dormia a sesta à sombra das boloteiras, junto às oficinas do Quartel. O Timóteo, ainda que com fama de tonto, era a voz do povo, o que muitos calavam, ele cantava, versejando em cantilenas intermináveis. Quando não estava a dormir pelos cantos, o Timóteo gostava de acompanhar as lavadeiras. Quando as via juntar-se com as trouxas à cabeça, preparando-se para rumarem ao Sabor, o Timóteo, num andar destrambelhado, a segurar a indumentária larga e rota, abria caminho colina abaixo até à presa da ponte velha do Sabor.
- Timóteo, canta-nos uma das tuas, sempre se nos aliviam as costas que hoje o rol não vai leve. – pedia a Guida lavadeira. E o Timóteo acedia, não para agradar à Guida, mas à sua linda filha Rosalina, por quem todos suspiravam. E assim, do alto do Altar, pedra saliente que os mais ousados usavam para mergulhar nas águas do Sabor, Timóteo cantava:

Bem cantava a lavadeira
ao som da sua barrela;
a roupa que ela lavava
era do Rei de Castela
ela lavava no Douro,
estendia naquela serra,
o sabão que le deitava
era cravo e canela;
o cesto onde coava
era de verga amarela;
a caldeira era d`ouro,
a i-asa de prata era.

A cantilena do Timóteo era acompanhada pelo bater da roupa nas lousas inclinadas sobre o rio, pelo esfregar a punhos fechados e pelo torcer a duas mãos. Tudo bem lavado e cheiroso, com ou sem barrela, dependia da vontade e do bolso da freguesia. Nas margens do rio, ao sol, as roupas à cora pintavam de branco a paisagem, sobressaindo as camisas dos militares e as rendas finas das senhoras da cidade. Cheirava a sabão feito em casa, processo cheio de segredos para a minha cabeça de menino. Como era possível das borras do azeite e mais a soda cáustica fazer sabão para lavar a roupa? Mistérios da Química que o Prof. Dionísio me haveria de explicar lá na Escola da Estacada.
De regresso à Cidadela, as formiguinhas lavadeiras, vergavam com o peso das trouxas de roupa molhada. Chegadas à Vila, ainda com os braços e as mãos dormentes de tanto esfregar, estendiam a roupa entre as muralhas como que a avisar os Castelhanos que ali era terra de paz e para guerra bastava a vida. 
Rosalina era a mais nova das duas filhas da Margarida lavadeira. Com 16 anos, também ela já ajudava a mãe, sobretudo nas barrelas mais exigentes, acendendo o lume de manhã cedo, acarretando os cântaros de água a ferver, enchendo os latos com a água que era preciso ir buscar à cisterna da Domus.
Foi num desses percursos até à Domus que Rosalina o viu pela primeira vez. Não estava autorizada a olhar para os militares, muito menos a responder aos piropos mais brejeiros dos soldados que, longe de casa e dos afetos, não continham vontades e não raras vezes se metiam em alhadas que a regra militar não contempla. Com o Tenente Malhadas, o Duarte, como Maria, a irmã de Rosalina, gostava de chamar, era diferente. O Duarte era educado, sempre impecavelmente fardado, escanhoado e com um sorriso que trazia as lavadeiras suspirantes.
- Bom dia menina Rosalina! Está um lindo dia! O Sol quase brilha tanto como esses seus olhos verdes…
Rosalina baixava a cabeça e não respondia. Só Deus sabe o esforço que fazia para se manter silenciosa. O Duarte, tão bonito, educado e Tenente! Intrigada, questionava-se como saberia ele o seu nome. Coisa de soldados que tudo sabiam, que tudo perguntavam.
Absorta nos seus pensamentos, mergulhava os latos na água da cisterna. Depois de cheios, tinha dificuldade em erguê-los.
- Isso não é tarefa para mãos tão delicadas. Quer que a ajude menina Rosalina? – ele de novo, o Duarte.
- Não sei se deva. Os meus pais…
O Tenente não deixou terminar a conversa, com a agilidade dos seus 26 anos, duma só vez puxou os dois latos já cheios de água que Rosalina, de mãos trémulas, a custo segurava. Ao sentir por perto o aroma quente e cuidado do Duarte, Rosalina esmoreceu, sentiu as pernas fraquejar e recostou-se para trás. Refeita e assustada, com uma força repentina, saiu da Domus a correr, puxando pelos latos que agora, estranhamente, tinham sido tomados duma leveza súbita.
Do alto da muralha, Timóteo cantava:

Deixa-te andar Rosalina, 
deixa-te andar a brincar
que hoje se corta a lenha,
amanhã vais a queimar…

Apesar das pedras das muralhas tudo testemunharem, a vida na Cidadela corria no seu remanso. O povoado acordava com o toque de alvorada do Miguelzinho, o corneteiro Mor do BC3. O toque destinava-se à rotina militar mas também marcava o ritmo dos que no casario habitavam, como era o caso do Sargento Morais que obrigava os filhos a levantarem-se ao toque do Miguelzinho. Os filhos, contrariados, levantavam-se mas vingavam-se no corneteiro. Ao abrigo das muralhas, quando este, de corneta debaixo do braço, regressava a casa, a garotada mais atrevida gritava bem alto:
- Miguelzinho, pardal sem rabo!
E era ver o Cabo Miguel, intrigado a olhar em redor para as muralhas sem perceber donde vinha o impropério.
Verdade, de tão miudinho que era, o Miguelzinho parecia incompleto, Adequava-se a nomeada.
A rotina remansosa da Cidadela só era interrompida nos dias de Juramento de Bandeira. Os populares eram autorizados a presenciar a cerimónia e a assistir à mestria do Prof. Guilhermino na direção da Banda Militar.
Mas outros dias marcaram as nossas vidas. Como aquele em que os soldados regressaram da Índia, corria o ano de 1958. O soldado Benigno, cujo nome de batismo batia certo com o seu carácter, ao passar por mim, gritou emocionado:
- Olha o Quim Vila! Que saudades dos meus rapazes da Vila!
Foi nesse dia que percebi que também se pode chorar de alegria.
No resto, tudo sucedia na normalidade costumeira. O cabo correeiro, nas oficinas do quartel, reparava os atafais das mulas e dos cavalos. A Terrona taberneira guardava a chave da Domus Municipalis, quando víamos alguns turistas canabeques a passar por baixo do Arco de St.º António, corríamos rua acima para pedir a chave do monumento, a nossa jóia da Vila, que mostrávamos com orgulho. Claro que o fazíamos na esperança de nos darem uma moedita para jogar na rifa que nunca saía ou para beber uma laranjada. 
Também me lembro de ver fome envergonhada pois os tempos não eram de fartura. A criançada, antes de ir para a escola descia a Rua do Jardim até à Igreja de S. Bento onde as catequistas Luzia, Dina e Teresinha, todas meninas e moças, preparavam o pequeno-almoço com os víveres que os Americanos mandavam pela Cáritas. Tudo regido e orientado pelo coração sem fim do Padre Miguel ajudado pelo Sr. Maurício, sacristão de serviço. Com o estômago mais acomodado, os rapazes partiam para a Escola da Estacada e as raparigas para a de S. Sebastião.
Os dias corriam iguais mas felizes. Ao toque de recolher, vários corneteiros em formatura em frente à Porta de Armas do Quartel, anunciavam o fim do dia. 
Houve um dia com um final de tarde diferente. 
Eu tinha ido à Fonte do Alcaide buscar um cântaro de água. Pelo caminho cruzei-me com o Laminuta que vinha do Rebolo. Estava ele a gabar-se dos mergulhos que dera da Carrasqueira e dos ralhetes das lavadeiras que queriam a canalha longe porque turvavam a água, quando ouvimos uns suspiros vindos do Carrascal.
- O que é isto? Ouviste Quim? – perguntou o Laminuta como que pressentindo marosca – Ia jurar que ouvi vozes e gemidos.
- Deixa lá isso, vamos embora. – acrescentei eu como que adivinhando desgraça.
- Deixo nada, anda cá.
Contrariado segui os passos de gato do Laminuta que depressa farejou a origem dos estranhos sons. Protegidos pelos carrascos, Rosalina, a morena lavadeira por quem todos suspiravam, perdia-se nos beijos do Tenente Malhadas, já liberto da jaqueta e com a camisa já desabotoada.
-Pára, não podemos! – defendia-se Rosalina entregue aos braços fortes de Duarte.
A cena inesperada provocou no Laminuta um risinho nervoso. A mim causou-me uma desilusão tão grande que sem pensar, soltei um berro que fez levantar a passarada e colocou alerta o casal improvável. Desatamos os dois a correr galgando a colina. Foi tão grande a pressa que me esqueci do cântaro da água lá na Fonte do Alcaide. Ao chegar à Vila, ainda disse ao Laminuta:
- Não digas nada, não contes nada a ninguém, ouviste?
Nem me respondeu, qual cabrito-montês, desapareceu pelas ruelas soltando gritinhos insanos. Naquela mesma noite na taberna da Tia Joana, adivinhava-se o tema da conversa. As línguas soltas, como não têm ossos, trataram de alastrar o sucedido. Rosalina caiu nas bocas do mundo, um beijo incontido, roubado, transformara-se na maior das devassidões.
No Quartel, nos aposentos dos Oficiais, Duarte, o Tenente Malhadas, deitara-se sobre a cama feita, não se desfardara nem descalçara as botas, logo ele que primava pelo esmero e que cuidava da farda com todo o brio. Estava preocupado, Rosalina, agora com 17 anos, era menor. Um ímpeto incontido, impensado colocava em risco a sua carreira militar, logo ele, oficial de carreira que aspirava a altos cargos, ele que até tinha amigos no Ministério. No dia seguinte, no gabinete do coronel, foi-lhe dito que a sua transferência tinha sido autorizada. Sem mais palavras, foi informado que partiria nessa mesma manhã. Não tinha pedido nenhuma transferência, era feliz e realizado em Bragança mas a disciplina militar dava-lhe a frieza necessária para entender a gravidade da situação, sentia-se até agradecido por não sofrer consequências piores.
E Rosalina? Rosalina sentiu a aspereza das mãos da mãe Guida e por três dias e três noites chorou sem parar, não de dor física, mas da ausência de quem amava.
Timóteo, o cancioneiro do povo, do Alto da Torre de Menagem, dizia:

Minha mãe mandou-me à fonte,
à fonte do salgueirinho;
mandou-me lavar a jarra
com a flor do rosmaninho.
Eu lavei-a com areia,
Quebrou-se um pedacinho.
- Anda cá, minha perra traidora,
Onde tinhas o sentido?
Não o tinhas tu na roca,
nem tão-pouco no sarilho;
tinhas é naquele mancebo
que andava de amor contigo.

Ao ouvir os versos do trovador, Maria, a irmã denunciante de Rosalina, sorria. No fundo estava satisfeita com as desventuras da irmã. Como podia o Duarte ter-se enfeitiçado pela irmã, de tez morena e ar de cigana? Como podia a irmã competir com a sua pele alva e os cabelos de ouro?
Timóteo, atento e justo, tinha resposta para Maria:

Eu levantei-me a passear
pela tarde, às duas horas;
vira estar numa janela
duas donzelas formosas:
Uma era muito branca,
da sua cor melindrosa,
outra era mais morena,
morena engraciosa.
Namorei-me da morena
por uma ação generosa;
A branca desque o soube,
logo se mostrou queixosa.
- Cale-se lá, senhora branca,
não seja tão invejosa;
Brevemente l`eu direi
o moreno em quanto se importa:
De preto são nas abelhas
a seu dono proveitosas;
De preto são nos cavalos
e as mulinhas corredoras;
De preto são nos ornatos
com que as igrejas se adornam;
De preto vestia o Rei
e o padre santo em Roma;
Preto era o manto
da Virgem Nossa Senhora.

Passaram muitos anos. O BC3 foi demolido e os militares foram embora. As lavadeiras carpiram a saudade de outros tempos. Já não se ouviam os martelos dos ferreiros de Além do Rio. Deixou de ecoar o som forte e decidido das botas dos soldados. As cornetas emudeceram-se e já não despertavam o casario nem mandavam recolher os indigentes mais descuidados.
Apenas Timóteo continuava a sua função. Nas noites quentes de Agosto, os netos dos que há muito tinham partido, pediam que lhes contasse, mais uma vez, a Lenda das Bruxas Lavadeiras. E ele, sentado no banco a meio do largo onde outrora se formava a parada, contava:
Nos tempos mais remotos, dizia-se que as bruxas lavavam a roupa de noite nos ribeiros. Uma noite, um homem que tinha um moinho, ficou de levar uns sacos de farinha a um cliente da aldeia onde o ribeiro passava. Ao aproximar-se com a mula depois de uma longa caminhada, ouviu bater roupa nas lousas do ribeiro. Não foi ver, pois estava sozinho e amedrontado. Quando entrou na aldeia, o povo perguntou-lhe:
- Viste as bruxas a lavar no ribeiro?
O homem respondeu:
- Eu ver não vi. Mas ouvi bater roupa nas lousas.
As pessoas da aldeia andavam sempre a perguntar aos que vinham de fora se tinham visto ou ouvido as bruxas a lavar, pois era a única forma de os apanhar e descobrir quem eram.
As crianças, curiosas, perguntaram ao Timóteo que bruxas eram essas. E ele, com um sorriso desdentado e encardido, mas sincero, dizia:
- Não eram bruxas, era uma fada. Era a Rosalina, a fada lavadeira da Cidadela.

Rui Machado


domingo, 5 de junho de 2016

Pelas mãos de Adorinda, a cabeleireira



Pela estrada municipal 542, de Miranda do Douro até Cicouro, Adorinda conduz decidida a sua vida. Paradoxalmente, conduz tecnologia alemã, conduz a sua carrinha Mercedes. A viagem não é longa, não durará mais de meia hora. O caminho leva-a até às mulheres da aldeia, lá no Largo da Junta. Pouco expansivas, aguardam serenamente entre dois afazeres. Eles, desconfiados, rondam por perto, atraídos pelo movimento e quem sabe, se disponham a aparar a barba ou o bigode. Um deles, o Ramiro, orgulhoso Mirandês, vaidoso no seu belo traje, exibe o seu bigode janota, um bigode connaisseur, enrolado nas pontas, fixado com uma cera própria que manda vir lá do estrangeiro. Apareceu a tocar gaita, aquela que nos faz chorar de alegria como disse a Né Ladeiras. O Ramiro disse ao repórter da RTP: “ ver estas coisas que nós estamos mal habituados, vir a televisão na nossa terra, ficamos um pouco envergonhados e depois não nos saiem bem as coisas. Arranjando o bigode, depois já nos alegramos um pouco e ficamos melhor”. Que bem se explicou o Ramiro, se estava envergonhado, ninguém deu por ela. Era mesmo aquilo, a Adorinda punha a gente melhor. Se o homem Mirandês se sentiu vaidoso, que dizer das mulheres que interromperam a dura jornada de trabalho do campo para se porem ainda mais bonitas.

A Adorinda é cabeleireira. Um dia, ela e o seu marido, carteiro de profissão, resolveram deitar as mãos à massa, hoje em dia, dir-se-ia que resolveram ser empreendedores. Hipotecaram-se comprando uma carrinha preparada para ser salão de cabeleireira. Tomada a decisão, fez-se ao caminho a Adorinda levando com ela tesouras e secadores e outros engenhos que esticam ou enrolam os cabelos, conforme a vontade da freguesa. Percorre Terras de Miranda, levando pelas aldeias a atenção e o carinho que toda a mulher merece. Nas suas mãos tecem-se os penteados mais ou menos modernos e disfarçam-se aquelas brancas teimosas com uma paleta de tintas, de esperança e de afetos. Enquanto as mãos hábeis trabalham, há sempre tempo para dois dedos de conversa porque às vezes faz melhor uma palavra amiga do que o corte de cabelo. O arranjo do cabelo pouco dura mas a palavra amiga dura muito, dura o suficiente para criar uma vontade que o mês passe depressa para que a Adorinda volte de novo.

“ Tiraram tudo das aldeias “ diz o marido carteiro da Adorinda cabeleireira. Tiraram a escola, a junta, o transporte e até o sinal da televisão. Só não levaram o orgulho transmontano que continua intacto nos poucos que ficaram. E ficou também aquele gostinho especial de estar bonita. Onde houver uma mulher, haverá sempre um espelho e para além do espelho, haverá um olhar do “meu homem” ou doutro alguém que queira bem à bela mulher transmontana. Bela e decidida, como aquela que apareceu montada no Bill, o seu garboso cavalo e do alto da montada, firme e corajosa parece querer desafiar os que ousem questionar a sua beleza refinada que o passar dos anos só apurou. 

Há também testemunhos na língua de Cervantes pois há quem atravesse a fronteira para ir atrás dos milagres estéticos da Adorinda: vêm peinar, cortar y arreglar el cabello.

Beleza naquelas outras, de outra aldeia, a Especiosa. Mulheres sofridas, com os vínculos da idade marcados na face. Apesar de tudo, cantam louvores à Especiosa que só pode ser boa terra, especial certamente e porventura maravilhosa:

“ Se fordes a Trás-os-Montes, ai ai

Não falteis à Especiosa, não não

É terra hospitaleira

Perdeu-se a luz da nação

Quem me dera quem me dera 

ser humilde lavrador…”

Talvez se tenha perdido um pouco da Luz, talvez, mas Adorinda, decidida, empreendedora leva na mão a candeia que realça o caminho. Mantém acesa essa vaidade que não fará mal a ninguém mas que será um tónico para enfrentar os dias que se avizinham difíceis. Mulheres guerreiras do campo, sozinhas, trilhando vidas delicadas, longe dos filhos que há muito partiram e distantes dos médicos que lhes explicam e tratam as maleitas. Esquecidas, alimentam o argumento estapafúrdio de que sendo poucas, são um mero número cuja grandeza não se evidencia nas prioridades dos que decidem.

No silêncio do Planalto Mirandês, Adorinda, a cabeleireira itinerante é um grito de resiliência que nos alimenta a esperança de que este Reino, além de Maravilhoso, é possível.


Rui Machado

sábado, 28 de maio de 2016

Pedimos a Carta de Vinhos ou vai mesmo o da casa?



Um grupo de amigos vai jantar fora e na hora de escolher o vinho, alguns pedem a Carta de Vinhos e escolhem o vinho que entendem. Os restantes aceitam a proposta de vinho da casa, substancialmente mais em conta que o vinho de marca escolhido pelos primeiros. No final, na hora de pagar, os de gosto mais requintado, sugerem que se divida a conta em partes iguais.

Serve a situação corriqueira para introduzir o tema quente das últimas semanas: as alterações ao financiamento das escolas privadas com contratos de associação celebrados com o Ministério da Educação. A questão é sensível e facilmente caímos na demagogia barata ou na doutrina ideológica e por isso hesitei bastante em escrever sobre o assunto. Na verdade, 23 anos de escola pública, praticamente metade dos quais no exercício de funções de gestão e administração escolar, acarretam um conjunto de certezas que podem prejudicar um olhar mais assertivo. Não obstante, a vida ensinou-me que a verdade e a razão, seja qual for a matéria, nunca estão somente num dos lados. Vejamos, quando um conjunto de pais, aparentemente extremoso, se manifesta publicamente, exigindo a liberdade de escolha para escola dos seus filhos, envergando slogans com frases feitas, não inocentes, tipo - “ eu acredito, eu confio, eu escolho, eu matriculo o meu filho na escola com contrato de associação” – desconfio que a questão maior não seja uma preocupação sincera com futuro das crianças. Não se coloca sequer a hipótese de matricular os filhos em escolas privadas sem contrato de associação. Estranho. Para estes pais, a escola só é boa porque é privada e porque é financiada pelo Estado – “com os nossos impostos” como gostam de dizer. Sim, mas também, com os dos outros contribuintes. Não parecem equacionar a qualidade das restantes escolas, públicas ou privadas, não estão interessados em conhecer outros projetos educativos e exigem, porque sim. Não chega. Não chega porque parece haver uma atuação orquestrada na metodologia usada nas manifestações sincronizadas e metodicamente organizadas, naquilo que, lamentavelmente, se designou por quartas-feiras amarelas. Para ajudar à desconfiança, olha-se de soslaio para a isenção dos órgãos de comunicação social, nomeadamente das televisões, no tratamento dado a questão, havendo mesmo quem verificasse que os pivôs dos jornais televisivos, ultimamente, vestissem muito de amarelo. Na mesma lógica, ex detentores de cargos públicos, vieram em defesa da importância da manutenção dos contratos de associação. Parece aqui haver uma lógica que vai muito além da preocupação daqueles pais que pretendem o melhor para os seus filhos.

Neste espaço, não cabem reflexões aprofundadas sobre as diferenças entre Escola Pública e Escola Privada, pretendo levantar um pouco o véu, ventilar algumas ideias e deixar as certezas para os decisores políticos, sempre tão certos e seguros das suas opções. Como ponto de partida, assumir que em qualquer civilização desenvolvida, plural e democrática, há espaço para as duas esferas: público e privado. A Educação, como trave mestra de qualquer sociedade, pode e deve fazer-se na perspetiva do Estado mas também com lógicas empresariais e liberais. A diversidade de abordagens, só pode enriquecer as sociedades. Falamos de complementaridade e não de exclusividade de nenhum dos setores. Esta visão globalizante da questão não faz de nós inocentes e obriga-nos a ter “ um olho no burro e outro no cigano”. Nem muitos dos colégios que agora viram o seu financiamento reduzido, podem clamar por mais justiça, nem os decisores políticos dos últimos 30 anos, - hoje em dia acolitados pelos diretores das unidades organizacionais, comprometidos, pendurados, subjugados e manietados por lógicas político-partidárias nacionais e locais – podem vitimizar-se, carpindo lágrimas de ataques externos, não fazendo a auto critica necessária. Especificando: os contratos de associação foram criados para dar resposta à massificação do acesso à escolarização que ocorreu a partir da década de 70. Durante décadas, o Estado foi incapaz de dar resposta à procura de escola na área da sua conveniência, a milhares de crianças e jovens. Socorreu-se do investimento privado, partilhando uma responsabilidade que, ao contrário do que se diz por aí, não é um exclusivo do Estado. Foi uma solução benéfica para todos os intervenientes, nomeadamente em zonas de grande densidade populacional mas também em territórios distantes da centralidade onde o Estado, ainda hoje, tarda em chegar. Nestas situações, analisando com objectividade caso a caso, o Estado deve manter-se como “pessoa” de bem e prolongar os contratos de associação. O mesmo já não deve acontecer nas situações de puro oportunismo que proliferaram a partir dos anos 80, com o beneplácito de alguns municípios e dos serviços centrais e regionais do Ministério da Educação. Seria importante que alguém averiguasse como foi possível autorizar a criação de novas turmas, financiadas pelo Estado, em colégios recém-criados, enquanto se colocavam entraves às escolas públicas com disponibilidade de instalações e recursos humanos. (Estes caminhos ímpios, foram bem explorados pelo jornalismo de investigação protagonizado pela jornalista Sandra Felgueiras no programa Sexta às 9, RTP 1, do passado dia 20 de maio, um jornalismo incolor e pouco dado a doutrinas.) Nestas situações, o Estado tem total legitimidade para cessar o financiamento a novas turmas. A questão é séria pois falamos de muitos postos de trabalho e da instabilidade gerada nas famílias, mas não há espaço para retrocessos. Nos últimos anos pediu-se aos cidadãos mais racionalidade no dispêndio de recursos públicos, como tal não pode o Governo intimidar-se com lógicas de poder, venham elas de onde vierem. Falamos de grupos financeiros, lógicas locais, corporativismo de classe e, não esquecer, a própria Igreja Católica.

Aos pais que exigem liberdade de escolha na escola dos seus filhos, dizer que os seus impostos não são suficientes para manter um esquema de financiamento aos contratos de associação e acrescentar que só alguns, poucos, têm acesso a tais condições. 

Terminando: só alguns provam do tal vinho de marca, o que pode não ser um problema já que há muito vinho da casa de grande qualidade, muitas vezes superior ao outro mais cheiroso e bem rotulado. Pobre do vinho da casa, com o qual ninguém parece verdadeiramente preocupar-se. Já passaram muitas quartas-feiras, de várias cores vestidas mas mantém-se que só uma cor é que é boa. E assim não vamos lá.

Rui Machado

sábado, 21 de maio de 2016

A sensatez da pobreza




Lentamente, a aldeia despertava. Aos primeiros raios de luz, já Diamantina arrastava os tamancos pelas pedras torpes da Rua do Povo. Não se fazia velha na cama, acordava com as galinhas e não merecia a pena estar ali a dar voltas à cabeça “ a pôr-se maluca”. A vida era aquilo. Nascera para servir. Não dera para os estudos. Aprendera a ler e a contar à custa das palmatoadas da professora Irene. Na altura chorava-as todas, hoje agradece-as. Foi graças à insistência da mestra-escola que hoje podia ler as cartas da Segurança Social e da madrinha, que todos os anos, lá pelo Natal, escrevia da América. De leituras, estamos conversados. De contas, vai exercitando todos os meses ao esticar a reforma para os medicamentos e outras precisões.

Nunca casara. Não se lhe amanhou a coisa. Achava sempre que os pretendentes a não mereciam, ou porque bebiam demais, ou porque gostavam pouco de trabalhar, ou porque se iam embora ou porque, e essa era a verdadeira razão, não tinha tempo para namoros. Ainda Diamantina era moça quando a professora Irene foi falar com o Arlindo e Benedita, pais da catraia. Diamantina era a mais nova duma irmandade de nove. Em casa, fome não havia mas fartura também não. Caldo de couves e um cibo de pão aconchegavam o estômago. Fartura só no tempo dos figos, a caminho da escola enchia-se a barriga. Por vezes, o pai Arlindo pescava uns peixitos no ribeiro e lá se fritavam num óleo já queimado e requeimado mas que sabiam pela vida. Também no tempo deles, na caruma dos pinheiros se apanhavam cogumelos, durante muitos anos foi o que mais parecido com carne se comeu. E foi por este cenário, nem rico nem pobre que a professora Irene falou com os pais da Diamantina:

- A rapariga não aprende e anda eslaraitada. Vai lá para casa. Alimento-a, visto-a e educo-a. 

A mãe concordou logo, era menos uma boca, menos uma ralação. O pai custou-lhe mais. Era apegado à rapaza. Gostava dela. Era respondona e alegrava os serões lá de casa. Mas a mulher que decidisse. Encolheu os ombros e foi-se para a taberna jogar às cartas. E assim se traçou o destino da Diamantina. Passou a viver em casa da professora Irene que nunca tinha casado, não por falta de vontade mas porque não arranjara homens de rendimentos semelhantes, como exigia o Regime. Funcionários não os havia e lavradores ricos, muito menos. A aldeia era pobre, riqueza só de fragas. Os homens novos estavam todos para as franças. Os anos foram passando e Irene foi perdendo a ideia, foi ficando rude de modos e desmazelando o corpo e as vestes. Vivia para a escola. Todos os finais de tarde levava para casa quatro ou cinco alunos, os mais atrasados na cartilha. Os exames da 4.ª classe não tardavam e era necessário prepará-los. Para Diamantina, a escola durava todo o dia… precisasse ou não precisasse. Depois, ao fim do dia, esfalfava-se na lida da casa. A caridade da professora terminava quando era necessário limpar a casa, ir à água, esfregar o soalho, fabricar a horta e outras tarefas. Não restava tempo. Ao final do dia, enquanto a celibatária se deliciava com as radionovelas da telefonia, Diamantina fazia os trabalhos de casa ou estudava para a catequese. Os dias eram sempre iguais, as noites intermináveis. Uma vez por mês, a biblioteca itinerante trazia livros. Às escondidas da tutora e com a conivência do funcionário da Gulbenkian requisitava os romances de Corín Tellado, amores de cordel, cheios de peripécias e que tornavam as noites longas e frias, um pouco mais aprazíveis. Só em sonhos viveria histórias parecidas. Os benefícios do amor não estavam guardados para a Diamantina. Feita a 4.ª classe, ainda se pôs a possibilidade de continuar os estudos na vila. Ninguém fez grande questão, por ali continuou a servir.

A vida era o que era. Não era do seu timbre lamentar-se. Feitas as contas e relevando os modos de vida de antanho, tinha aquele poucochinho de suficiente. Vivia ao ritmo das necessidades da tutora, aposentada entretanto. Além de criada, era uma espécie de dama de companhia. A velha mestra gostava de ouvir histórias de livros antigos que Diamantina lia repetidamente. Histórias de outros tempos, tempos de respeito como gostava de frisar a jubilada. Diamantina nem sempre concordava com as ideias conservadoras da professora Irene mas tinha de dizer que sim senhora, que tinha toda a razão. Diamantina, com a sua maneira servil, foi conquistando as boas graças da proprietária de muitos e bons prédios da aldeia de Pedreiral. Por esta altura, já estava habilitada como herdeira. Por vontade da tutora, a menina moça criada, herdaria o seu património que, não sendo de monta, lhe traria algum conforto pela vida fora. Assim estava previsto. Acontece que um dia, o Dr. Teodósio, Solicitador com escritório montado, tinha estado à conversa durante mais tempo que o habitual. Entrara em casa da professora afogueado e sairia mais abatido do que o habitual, recusando mesmo os bolinhos de coco e o porto licoroso que Diamantina oferecera. A professora ficara sozinha, ouvindo-se um choro soluçado e um renhir entre dentes quase impercetível. Diamantina não sabia o que se passara, mas coisa boa não seria pois nos dias seguintes, a patroa mantivera-se fechada no quarto não querendo sair, abrindo exceção para o terço radiofónico. Pouco tempo passado, morreu. Como todos os dias, às seis da tarde, ouvia o terço na Rádio Renascença. Finou-se com o rosário nas mãos.

Diamantina chorou a morte da tutora. A dor não era profunda pois sentia que as benfeitorias da professora Irene tinham sido pagas com a força do trabalho de longos anos. No dia seguinte, acordou proprietária. Antes de abrir os olhos, naquele lento voltar, pensou como seria o acordar dos ricos. Deixou-se ficar por uns momentos para perceber a diferença. Estranhamente, não sentiu especial alteração. Doíam-lhe na mesma as cruzes, as mãos adormeceram-lhe durante a noite e continuava pitosga pois, sem o auxílio dos óculos de massa, não vislumbrava as horas no despertador.

- Talvez não seja assim tão diferente ser rico! – Pensou.

Levantou-se. Não teve de aquecer água para o banho da senhora, nem esfregar-lhe as costas, nem cortar-lhe as unhas dos pés. Fazia-o por inerência de funções mas estava farta das rotinas de muitos anos. Estava cansada dos monólogos cheios de razão da patroa, das ideias conservadoras, dos tiques autoritários, das visitas de conveniência e da obrigação das orações. E também do trabalho dos campos, sempre às ordens da patroa e aos mandiletes do caseiro. Hoje a Diamantina proprietária não tinha de se preocupar com essas rotinas. Hoje seria ela a dar as ordens. Havia só um pequeno senão, não tinha a quem ordens dar. Para resolver a limitação do exercício do poder, mandou chamar uma das irmãs que casara com um contrabandista, ausente quase sempre e muito fugidiço por causa da Guarda. Não tinham filhos, dizia-se na aldeia que o homem era machorro e por isso a ausência de cria, muito conveniente para Diamantina. Depois de proprietária era agora patroa. À irmã, agora sua criada, destinou-lhe os seus antigos aposentos:

- Ficas bem aqui!

- Falavas tão mal do quarto, dizias que era frio e húmido. – Alvitrou a irmã.

- Impressão tua, abres as janelas e arejas isto todos os dias. Ficas bem. – Atirou a Diamantina patroa.

A irmã, agora criada, encolheu os ombros, e com pouca convicção acenou a cabeça em concordância.

Dadas as ordens do dia, sentou-se na poltrona da antiga patroa. Sentiu-se bem. Mandou vir um chá de hipericão e deitou uma olhadela à correspondência. Da meia dúzia de cartas, uma do Fonsecas & Burnay, chamou-lhe a atenção. Foi nessa que pegou. Abriu-a. Leu-a:

“ Informa-se Vossa Ex.ª de que fomos contactados pelo Senhor Alberto Santos, residente no Brasil, apresentando este, certidão de nascimento, certificando ser filho da falecida D. Irene Santos e de pai incógnito. Pela presente, fica Vossa Ex.ª desabilitada a poder movimentar as contas de D. Irene Santos.

Com os melhores cumprimentos

Cosme Vilarinho

(gerente) “

Dobrou de novo a carta e meteu-a no envelope. Levantou-se, dirigiu-se à cozinha e disse à irmã, efémera criada:

-Deixa estar, eu faço o chá.


RM

sábado, 14 de maio de 2016

Gavetas onde se guardam pedaços de vida (recordando a Livraria Mário Péricles - Bragança)


Mário Péricles da Cruz
Mário Péricles da Cruz




Dele, pouco ou nada me lembro. Ao longo da vida trabalhei uma memória que de tanto voltar a ela, tornei-a verdadeira. Teria eu três ou quatro anos. Ao seu colo, passeava pelo jardim da sua casa no Bairro da Estação. Nas minhas pequenas mãos, um raio de Sol fazia cintilar uma moeda que ele me tinha dado. Foi desse gesto, do colo e da moeda, que estará lá por casa numa daquelas gavetas onde se guardam pedaços de vida, foi desse gesto que alimentei a tal memória. Da segurança dos seus braços, pude ver as primeiras cerejas de cerdeiro de cima e sentir o ar enroseirado que pairava no seu jardim. Do meu avô Mário Péricles, lembro-me que trazia chapéu e que me falava baixinho sempre que eu apontava para os pardais que nos queriam comer as cerejas. O meu avô Mário Péricles, em 1938 abriu uma Livraria em Bragança que esteve aberta 66 anos. 

O resto da memória construiu-se ao longo dos anos. Em muitos dias, tantos que foram anos, que foram décadas. Nos dias em que fazia da Rua Direita o meu recreio de brincar. Nos dias em que ouvia as conversas dos mais velhos nas tertúlias de fim de tarde lá na Livraria. Nos dias à volta da mesa de família quando uma das suas filhas, minha mãe, falava do meu avô Péricles com aquele carinho que só os filhos sentem. Naqueles outros dias, tantos, em que o Sr. Vasconcelos me dizia vezes sem conta que o meu avô era um bom homem, como já não havia, dizia ele. Nos dias em que correndo o nosso mundo transmontano, ouvi testemunhos que realçavam a importância do voto de confiança naqueles que procuravam Bragança para estudar permitindo que se pagasse quando fosse possível: quando se vendesse a castanha, a azeitona ou a amêndoa. Era o tempo das relações de confiança na nobre gente de parcos recursos mas de enormes qualidades. Foi assim de 1938 até 2004. Poderia dizer que foram muitos, mas não digo, porque não foram. Deveriam ter sido mais. Passaram 12 anos desde o seu encerramento. Tem sido um luto difícil. Durante vários anos guardei essa memória numa das tais gavetas, onde se guardam os pedaços de vida. Hoje tudo é tão efémero e volátil que me conforta abrir algumas gavetas de saudade. Desde sempre me lembro de entrar na Livraria e sentir aquele cheiro característico a papel velho, impresso. Ao transpor as velhas portas verdes, entrava-se numa espécie de Babilónia, numa confusão com sentido, mas também se entrava numa espécie de “Porta de Deus” no sentido que ali se encontravam mundos novos, todos os mundos e muita gente boa, a que estava mas sobretudo, a que entrava. Na boa senda do comércio tradicional, recebia-se com gosto e sabia-se o nome de toda a gente. Os métodos de venda não eram os mais agressivos e na verdade muita da clientela procurava apenas dois dedos de conversa.

Quem ali entrava perdia-se numa imensidão de lombadas alinhadas verticalmente, num suave caos que convidava à descoberta. Os livros, aos milhares, aguardavam que um olhar mais atento se fixasse nos seus títulos ou nas suas capas mais ou menos atrativas. Sem nada poderem fazer, aguardavam a sua vez de poderem ser folheados, de se entregarem nas mãos do leitor que os elegera.

O resto era vida. Era o chegar das encomendas muito bem embrulhadas em papel ferro. Era o carteiro de muitos anos que se justificava se não houvesse correspondência para entregar. Era a cabeleireira mais afoita a perguntar se já tinha vindo a Crónica Feminina, a Maria ou, pelo Natal, a Eva. Era o estudante menos empenhado à procura dos auxiliares das obras obrigatórias. Era a professora primária que considerava a sugestão da D. Celeste. Era o senhor da agência que comprava o papel azul de 25 linhas, o papel e os valores selados, numa lógica muito certinha de fazer as coisas. Era o cabo da GNR que vinha levantar a encomenda do economato. Era um corrupio de gente de todos os quadrantes e credos.

Mas o sangue da Livraria jorrava dos seus clientes leitores. Era ali que se oxigenavam lendo a Coleção Vampiro e os casos complexos de Agatha Christie dos Livros do Brasil; As obras de Eça, de Virgílio Ferreira, de Camilo Castelo Branco, de Fernando Pessoa, de Sophia de Mello Breyner Andressen, de Florbela Espanca, de Miguel Torga; Todos os poetas da Assírio & Alvim; A Banda Desenhada da Meribérica; Os vinte e tal volumes da Luso Brasileira da Verbo Editora; A nossa história contada por Oliveira Marques ou José Mattoso; A coleção toda do nosso Saramago, Prémio Nobel; Aqueles que não gostávamos de vender como as entrevistas ao ditador, a cartilha ideológica do nazi sanguinário e ainda o Grande Livro de S. Cipriano que alguns compravam para fazer mal ao vizinho ou à amante do marido; Os romances de cordel de Corín Tellado e aquela Coleção Azul da Romano Torres para as aspirantes a nubentes, ofegantes e desejosas…

Numa outra gaveta, há também espaço para recordar os viajantes que traziam as novidades e sotaques de outras paragens e que faziam centenas de quilómetros em estradas cheias de curvas e sem túneis só para fornecerem a Mário Péricles de Bragança. Traziam no mostruário as últimas levadas à estampa da Dom Quixote, das Publicações Europa-América, da Verbo, das Edições 70, dos Livros do Brasil, da Almedina de Coimbra e da Figueirinhas ou dos Livros Horizonte. Traziam Pessoa da Ática Editora. Traziam Florbela Espanca da Bertrand Editora.

Nas estantes da Livraria Mário Péricles também havia as letras de outras línguas, de outros olhares e pensares. Havia Isabel Allende, Hemingway, Kafka, Milan Kundera, Mário Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, Umberto Eco…

Havia tudo. Quase tudo. Se não houvesse, o Sr. Luís escrevia um bilhete postal com uma letra pequenina, letra de poeta, para pedir à editora. Mais tarde dizia-se ao cliente:

- Chega para a semana; Deve estar para chegar ou penso que esteja esgotado. – Mas chegava, sempre chegava.

Os anos passaram e a história da Livraria fez o seu caminho marcando várias gerações, banhando-as de letras, muitas letras. A sua maior marca não será mensurável, essa estará gravada de forma indelével no carácter daqueles que beberam na sua nascente, não o precioso líquido indispensável à vida, mas a não menos dispensável sabedoria que se colhe nas relações humanas de quem gosta, compra e lê um bom livro.


Livraria Mário Péricles (1938-2004)


RM